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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Entrevista com Nomy Lamm

Há um tempo já, publicamos aqui no blog a tradução do texto It's a Big Fat Revolution escrito em 1995 pela de-quase-tudo-um pouco Nomy Lamm. No final do ano passado (2009) fizemos uma entrevista por e-mail com ela, para publicar na segunda edição do nosso zine impresso. Como não é todo mundo (ainda) que pode ter acesso a ele, colocamos aqui, na íntegra, as perguntas e respostas. Nomy é uma pessoa hiper atenciosa, admirável e foi muito legal manter este contato com ela. Segue a entrevista:

CAF: Antes de mais nada, muito obrigada por fazer esta entrevista com a gente. Queremos saber como e quando você acha que entrou em contato com o feminismo pela primeira vez e se sua música e sua arte acabaram sendo uma forma natural de juntar tanto suas ideias quanto seus sentimentos numa coisa só.
NOMY LAMM: A primeira coisa da qual me lembro é de falar sobre feminismo com um grupo de amigas quando eu era adolescente. Minhas amigas e eu fazíamos festas do pijama durante todo o ensino médio, por mais que seja algo que geralmente as garotas mais novas façam. Nós assistíamos a filmes, comíamos besteira, contávamos nossos segredos umas para as outras, falávamos sobre o que estávamos aprendendo e sobre o que estávamos pensando, sobre nossos corpos e sexo e amor e o mundo... quando o tema "feminismo" apareceu nós todas dissemos que não nos identificávamos com ele, eu acho que pensamos que isto significava que mulheres não deviam usar maquiagem e deveriam tentar ser poderosas executivas de sucesso. Por volta dos meus 16 anos eu estava numa banda só de meninas e quando eu tinha 17 eu me identifiquei como uma riot grrrl e passei a admitir a minha raiva. Eu sentia como se houvesse uma mágica que acontecesse entre meninas quando nós confiávamos umas nas outras, e eu me sentia protetora disso. Eu comecei a dedicar a minha vida a escrever e trocar zines com outras garotas, fazer música com elas, travestir-nos e outras formas de performance em espaços onde as garotas estavam no comando...

CAF: Você escreveu "It's a Big Fat Revolution" dizendo que muito do seu trabalho com o feminismo e a cena punk. Como você vê a conexão entre ambos?
NL: Na época em que escrevi este ensaio eu estava no meio de um movimento cultural de garotas na cena punk (riot grrrl). Havia uma massa crítica de meninas que estavam animadas em fazer as coisas, em serem ativas e o centro de nossos próprios mundos, e estávamos cansadas de estar no fundo de uma cena dominada por garotos. Nós concentramos o espírito rebelde do punk rock no feminismo, e as críticas radicais do feminismo no punk rock.

CAF: Geralmente o punk se constrói dentro de uma contra-cultura, sem sair muito de seu meio. Como você se sente tendo o seu trabalho reconhecido fora dessa cena (e agora sendo lido em outras línguas)?
NL: Fico feliz que meu trabalho, especialmente este ensaio ("It's a Big Fat Revolution") e os zines que eu escrevi ("I'm So Fucking Beautiful") tenha atingido a tantas pessoas. É muito legal que depois de tantos anos eu ainda ouça de pessoas que acabaram de se deparar com coisas que escrevi quando era uma adolescente e que tiraram algo disso. O trabalho de libertação gorda com o qual eu comecei a me envolver quando eu tinha 17 anos tem um alcance amplo, é aplicável ao punk mas também pra qualquer um que tenha aprendido a gordofobia de sua cultura. A própria "Guerra contra a obesidade" que vem acontecendo nos EUA está criando um ambiente onde nossos corpos não são consideradas como a "causa" da doença, eles estão sendo considerados como "a doença". Então eu fico feliz que a minha voz possa ainda fazer parte do combate a estas mensagens, aqui nos Estados Unidos e fora dele.


CAF: Também em seu texto você disse que há uma revolução acontecendo, mas nada que fosse aparente para a cultura mainstream ainda. Isso foi em 1995. Agora estamos em 2009... muita coisa mudou?
NL: Essa é realmente uma boa pergunta. Eu acho que muita coisa mudou de certa forma, há um movimento de libertação gorda muito maior que está enxergando as políticas da gordura dentro de um sistema de opressão mais amplo. Muitos dos ideais pelos quais eu estive lutando quando era adolescente acabaram se tornando parte da minha realidade diária de uma forma que eu não poderia ter adivinhado. É revolucionário para mim que eu possa viver num contexto queer, feminista, sexo-positivo, positivo em relação ao corpo, transgressor de gênero, politicamente radical e anti-racista em que estes são os valores pressupostos, e meu trabalho é sobre aprofundar em vez de lutar o tempo todo contra um inimigo visível. Por outro lado, a visão que eu tinha de uma transformação de todos os sistemas de autoridade e de opressão institucionalizada em uma realidade centrada em comunidade e amor ao corpo e à terra, bem, isso não aconteceu realmente. Digo, os Estados Unidos é uma merda politicamente e economicamente, tão interligado com esses velhos sistemas de poder que eu não tenho certeza se realmente temos a capacidade de mudar. Eu frequentemente me sinto derrotada. Minha namorada Melodie disse outro dia que ela acha que essa sensação de derrota está conectada com o processo de se livrar da identificação com o poder. Tipo quando eu era mais jovem e acreditava no sistema em que vivia porque eu acreditava que ele poderia ser transformado, e na medida em que eu envelheço, mais desiludida eu fico em aceitar que eu sou uma serva. Eu gostaria de ter essa crença confrontada, quero acreditar que podemos mudar o mundo, que nossos esforços não tem de ser mediados por um sistema de poder que quer cooptar nosso trabalho.

CAF: Você acha que essa gordofobia toda está relacionada apenas aos padrões de beleza/questão de "saúde"? O que você acha que se esconde por trás disso?
NL: Acho que os padrões de beleza e as questões de saúde meio que surgiram de uma tendência cultural focada em padronizar nossas vidas, alimentação, roupas, corpos (locais de trabalho, moradia, etc etc) ao longo dos últimos séculos com a Revolução Industrial. E eu acho que a pessoa gorda acaba se tornando um bode expiatório conveniente.

CAF: Houve alguma situação específica de opressão que você gostaria de compartilhar que a fez perceber que as coisas não estavam certas, ou foi como um bocado de experiências acumuladas?
NL: Eu fiz dieta por tanto tempo, desde os meus cinco anos de idade, e cresci num ambiente familiar com um pai bulímico, e experimentei traumas médicos e sexuais quando jovem, que a partir do momento em que tive espaço para falar a respeito disso tudo, as coisas simplesmente deram um clique dentro de mim. Foi um alívio e tanto poder ver um sistema que estava criando essas experiências em vez de achar que havia algo de errado comigo ou que eu merecia isso tudo.

CAF: Você disse que o fato de ter nascido com uma perna não influenciou tanto a sua imagem corporal tanto quanto ser gorda o fez. Você acredita que isso pode ter sido influenciado de certa forma por uma sociedade que tende a ter pena de pessoas com alguma deficiência física e satanizar/culpar as pessoas gordas?
NL: Eu acho que é uma boa possibilidade. Era assim que eu me sentia na época em que escrevi esse ensaio [It's a Big Fat Revolution], mas eu não lidei de fato com o meu trauma de ter perdido meu pé ou de usar uma prótese que teve um preço alto no meu corpo. Eu sabia que a minha deficiência não era minha culpa, enquanto que eu sempre era levada a crer que ser gorda era fruto da minha própria fraqueza. Quando eu me acertei com a minha gordura, minha sexualidade [queerness], meu gênero, eu tive que lidar com a experiência física de meu corpo que de várias maneiras havia sido moldado pela minha deficiência. Meu corpo foi problematizado no meu nascimento e meu pé foi amputado por motivos basicamente não-médicos, então eu acredito que esta tenha sido uma razão determinante para que a opressão que eu experimentei em relação ao meu corpo tenha me marcado tão profundamente.

CAF: Ainda sobre influência, você chegou a crescer em um ambiente religioso? Houve algum conflito entre você ser judia e lésbica, e como isso pode ter afetado sua música e visão política?
NL: Eu cresci numa congregação que não teve um rabino até que eu completasse treze anos, e que depois se afiliou como reconstrucionista, que é uma ramificação conhecida por ser mais progressiva socialmente. Eu acho que foi difícil pra mim ter que me assumir em Olympia onde cresci porque minha família e todas as mesmas pessoas que já me conheciam desde que eu era uma criança ainda tinham as suas atenções voltadas para mim, mas eu não recebi muitas mensagens religiosas homofóbicas por parte dessa comunidade. Eu investi muita energia para integrar minha sexualidade [queerness] e o judaísmo e deficiência física e feminismo etc, entendendo o que eu acreditava e como tudo pode se complementar. Ser judia teve um grande impacto na minha sensibilidade musical.

CAF: Você está envolvida em algum projeto musical ultimamente? E não musical?
NL: Nomy Lamm & THE WHOLE WIDE WORLD. É basicamente uma plataforma para colaborar com um monte de pessoas diferentes e fazer com que tudo tome parte de um projeto coeso. Tenho trabalhado com um pedal loop e apresentação de slides de fotos, usando música pré-gravada criada por mim junto de outrxs artistas, e cantando e fazendo looping ao vivo no palco. Eu só tenho gravações caseiras por ora, espero gravar um novo álbum no próximo ano ou algo assim. Eu também toquei algumas músicas recentemente com um projeto de banda chamado OBEAST, e foi muito legal. Além disso eu estou fazendo pós-graduação trabalhando num mestrado sobre escrita criativa, e eu acabei de escrever uma peça curta chamada "Embroiled" que será produzida na temporada pela Jump! (uma companhia de teatro que produz trabalhos que mostram representações autênticas de doenças mentais).

CAF: Por último mas não menos importante, há algo que você gostaria de adicionar/dizer/reclamar? :-)
NL: Minhas costas dóem bastante agora, e eu tenho que me vestir e ir ao dentista. Acho que é toda a reclamação que tenho para fazer no momento. Muito obrigada por me entrevistar, estou animada em fazer parte do zine! Um alô para as feministas brasileiras, é uma honra me envolver com vocês.

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Nomy Lamm ao vivo, @ the Big Gay Cabaret


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Desde a Insignificância

"Acusações podem vir da ignorância mas elas servem aos interesses dos homens, não das mulheres" Mary Daly.

Como te atreves?
Insolente.

Pretendes qualificar-me
sem saber como se vive
desde o alto da escarpa.


Tu, ostentando propriedade

do mundo.


Com sua idéia moral
e de bem-proceder.


Te estorvo tanto,
que seria grande
tratar de enumerar,
em exato
aquilo que julgas.

Que neguei-me
a ser tua musa
ou a imagem étnica
que te justifica.

Que cansei-me
da servidão.
Que estou farta
da incondicionalidade absurda.

Provavelmente,
é porque tomei a opção
de abrir os horizontes
de escutar minha voz,
de nomear a minha irmã,
e que me fiz apropriar-me
de meu fazer-autonomia.

Então, me acusas:

Que sou vaidosa.

Que me falta sabedoria
- para entender suas regras -.

Que de minha boca saem mentiras
- porque não posso tragar suas verdades -.

Porque tomei a palavra.
Porque inventei meu caminho.
Me chamas infiel.
Outra vez sou a hereje.
Novamente, a pecadora.

Você, desde a altura iluminada,
sentencias, como se pudesses,
sobre a alma minha,
e me chamas mulher de obscuridade.

Desde teus altares,
ante suas tribunas,
empunhando teu cetro.
Ordenou desfigurar
a imagem de meu rosto.


Tentou esconder meu nome
dos testemunhos.

Porém,
não logras o esquecimento
da minha existência.

Deixa-me, deixa-me.
Elijo ser a pária.
A infecciosa.
A insuficiente.

Fico aqui,
vaidosa,
instintiva,
com minha inteligência pouca,
com minha verdade sombria.

Fico aqui,
sentada em minha soberbia.
Já que uma coisa eu entendo.
Uma só, é certa:

Se estou tão errada;
Se tenho o caminho tão perdido;
Por que insistir em negar
o que 'não conta'.

Por que você, desde o poder,
se ocupa de me conter
de me acossar, de me acurralar.

Por que, se sou apenas nada
Por que, então,
minhas perguntas abrem feridas?

Por que se questiono eu,
você e suas hierarquias encharcam cimentos.

Por que, se abro eu a boca,
tu tremes.



Patricia Karina Vergara Sánchez é uma feminista lésbica, poetisa e escritora mãe de uma filha que vive no México. e que, como ela mesma diz "Sou morena, gorda e peluda." e que "Constantemente está desempregada", por ter "escolhido inconformar-me quando há injustiças e por culpa desses olhos meus que se dão conta e desta boca nécia que não quer calar.". Mais em seu site cuentitospallevar.blogspot.com ou por e-mail: pakave@hotmail.com


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

DIA MUNDIAL SEM CARRO & MARCHA DAS 1000 BIKES

Setembro é o mês da Bicicleta em Curitiba:

O coletivo Interlux Arte Livre, responsável pela programação do evento ARTE BICICLETA MOBILIDADE de 2009 e integrantes da Bicicletada de Curitiba programaram atividades para amanhã, dia 22, o Dia Mundial Sem Carro.


22 de Setembro, Terça-Feira:


12h – mobilização na Praça Santos Andrade rumo à Câmara dos Vereadores

16h – Vaga Viva pelo Centro e Música Para Sair da Bolha

18h30 – Marcha das 1000 bicicletas


Visite http://artebicicletamobilidade.wordpress.com/ para maiores informações.



A prefeitura de Curitiba também realizará eventos no Centro e nos bairros


No Centro da cidade serão fechados ao trânsito o trecho mais central da avenida Marechal Deodoro - da rua João Negrão à Marechal Floriano Peixoto; os acessos à praça Tiradentes; e a rua Barão do Rio Branco entre o Paço Municipal e a André de Barros. Apenas ônibus, bicicletas, pessoas a pé e veículos de serviços essenciais e de emergência terão acesso aos trechos interditados.

No espaço normalmente usado pelos carros, estas ruas vão abrigar terráreo, Condomínio da Biodiversidade, feira de produtos orgânicos, atrações artísticas, jogos e brinquedos, educação de trânsito, artesanato, exames de saúde e uma série de outras atividades de lazer e serviços para a população.

As outras atividades estão programadas para acontecer no Boa Vista, Boqueirão, Cajuru, CIC, Pinheirinho, Portão e Santa Felicidade, mais informações aqui.

Lembrando que em todos os últimos sábados do mês acontece a Bicicletada de Curitiba. Saída às 10h no pátio da Reitoria da UFPR.
http://bicicletadacuritiba.wordpress.com/



Meninas, é hora de colocar o pé no pedal!

C.Z.

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mais um informe sobre o Dia Mundial Sem Carros:


Jornada Mundial na cidade sem meu carro

evento da Casa do Trabalhador


Nessa terça-feira, dia 22 de setembro, uma série de eventos em todo o mundo celebra a Jornada Mundial na cidade sem meu carro.

Aqui em Curitiba, o movimento social promove o debate "Os desafios da Terra habitável para a economica contemporânea" com o ambientalista Henrique Cortez (EcoDebate/RJ) e Raska Rodrigues (Secretário do Meio Ambiente do PR).O debate acontecerá no SENGE às 19hs.

Participe e divulgue!

Sindicato dos Engenheiros (Senge) - CCI Itália, 22º andar, Rua Mal Deodoro, 630, CCI - 22º andar.

Informações: Cepat (3349-5343)
Promoção: CEPAT; SENGE; IHU; ITCG
casatrabalhador@terra.com.br

sábado, 12 de setembro de 2009

4ª Verdurada Curitiba

Este Domingo - 13/09

15h
(chegue cedo) - Entrada: $7

Local: CELU (Casa do Estudante Luterano)
Rua Carlos Cavalcanti, 239 (em frente ao Passeio Público)

Bandas:
Discarga (SP)
Positive Youth (SP)
Onde eu me Encaixo? (GPVA)
BITCH (GPVA)
Through the Storm

Debate:
"Hardcore e Política - Problema seu ou problema nosso?"
Proponente: Rodrigo Ponce


Jantar VEGetariANO grátis no final - Por favor, sem bebidas e cigarros
.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

It's a Big Fat Revolution: Nomy Lamm


Naomi Elizabeth Lamm, ou apenas Nomy Lamm, é uma ativista política, cantora, compositora, musicista, escritora, dramaturga, lésbica, judia, gorda e que só tem um pé.

"A badass, fat ass, dyke amputee", em suas próprias palavras.

Nomy co-escreveu a ópera "The Transfused", lançou dois álbuns ("Anthem" e "Effigy"), publicou um zine chamado "My Body Is Fucking Beautiful" entre vários outros projetos que incluem livros, peças, palestras, aulas de canto (Nomy acredita que todos têm a capacidade para cantar, mas muitos não conseguem achar o jeito certo de lidar com a própria voz) e projetos relacionados à positividade em relação ao corpo, o combate à opressão de gordxs e amputadxs e também ao que for relacionado ao queer ao punk e ao feminismo em geral.

Em 95, Nomy escreveu um ensaio extremante pessoal (como a maior parte de seu trabalho), que fala sobre a satanização que uma pessoa gorda (em especial a mulher) sofre na sociedade e de como o feminismo e o meio punk acabam lidando com isto, às vezes de maneira libertadora e às vezes até mesmo opressora.
Ei-lo, numa tradução livre e despreocupada, mas que acredito transmitir a sinceridade e as ideias pretendidas por ela:

It's a Big Fat Revolution
por Nomy Lamm

Vou escrever um ensaio descrevendo minhas experiências com opressão contra o corpo gordo e as maneiras com as quais o feminismo e o punk tem influenciado meu trabalho. Será claro, conciso e bem elaborado, e será exposto como artigo tese básico, no formato acadêmico. Vou lidar com estas questões de forma madura e intelectual. Vou me vangloriar com palavras difíceis sempre que possível.

Eu menti. (Você provavelmente sacou essa, hein?) Não posso fazer isto. Esta é a minha vida, e minhas palavras consistem na mais eficiente ferramenta que possuo para confrontar esse mundo-de-garotos-brancos (este é o meu jeito punk e bonitinho mas oh-tão-revolucionário de dizer "patriarcado"). Se tem uma coisa que o feminismo me ensinou, foi que a revolução será nos meus termos. A revolução será incitada pela minha voz, pelas minhas palavras, não pelas palavras do universo de intelecto masculino que já existem. E eu sei que um cambau de muito do que eu digo é totalmente contraditório. Minhas contradições podem co-existir, porque elas existem dentro de mim, e eu não vou simplificá-las para que elas possam caber no padrão linear e analítico em que eu sei que elas deveriam caber. Eu acho que é importante reconhecer que essa coisa toda realmente contribui com a revolução, de verdade. O fato de eu escrever assim porque é o jeito que eu quero escrever faz desse mundo simplesmente mais seguro para mim.

Quero explicar o que eu quero dizer quando falo "a revolução", mas não tenho certeza se vou conseguir. Porque ao mesmo tempo em que estou sendo totalmente séria, eu também vejo o meu uso do termo como gozação com ele mesmo. Parte da razão para isso é que eu estou completamente ciente de que eu ainda faço parte da cultura dominante de várias maneiras. A revolução poderia muito bem ser feita contra mim, ao invés de ao meu favor. Eu não quero me fazer soar como se eu fosse a mais oprimida, mais punk-rock, mais revolucionária das pessoas no mundo. Mas ao mesmo tempo eu acho que revolução é uma palavra que eu deveria usar o mais frequentemente possível, porque é um conceito do qual eu preciso estar consciente. E eu também não quero dizer de um jeito abstrato nem intelectualizado. Eu realmente acho que a revolução começou. Talvez não seja aparente na cultura mainstream ainda, mas eu vejo isto como um bom sinal. Assim que a cultura mainstream perceber essa revolução, ela tentará cooptá-la.

Por ora a revolução acontece quando eu passo a noite toda acordada falando com minhas melhores amigas sobre feminismo e marginalização e privilégio e opressão e poder e sexo e direito e rebelião da vida-real. Por ora a revolução acontece quando eu vejo uma garota se posicionar de frente para uma multidão e relatar a todxs sobre seu abuso sexual. Por ora a revolução acontece quando eu recebo uma carta de uma garota que eu nunca conheci e que diz que o zine que escrevi mudou a sua vida. Por ora a revolução acontece quando os sem-teto daqui acampam por uma semana no meio do centro da cidade. Por ora a revolução acontece quando sou confrontada por umx amigx sobre algo racista que eu disse. Por ora a revolução acontece na minha cabeça quando eu vejo o quão brilhantes minhas amigas e eu somos.

E estou vivendo a revolução por meio de minhas memórias e por meio da minha dor e dos meus triunfos. Quando penso sobre todas as marcas que possuo cravadas por essa sociedade, eu fico maravilhada por não ter me tornado um monte de merda inútil. Fatkikecripplecuntqueer, em poucas palavras. Mas aí eu tenho que levar em conta o fato de que sou articulada, branca, uma garota educada, de classe média, e que isso me concede uma pancada de privilégio e oportunidade de lidar com a minha opressão que pode não estar disponível para outras pessoas oprimidas. E desde que minha personalidade e meu ser não estão dividos em parte privilegiada e parte oprimida, tenho de lidar com as maneiras com que essas duas partes interagem, se equivalem e às vezes até se ofuscam. Por exemplo, eu nasci com apenas uma perna. Acredito que seja grande coisa, mas que nunca influenciou minha imagem corporal do mesmo jeito que ser gorda influenciou. E o que significa ser uma mulher branca em oposição a uma mulher de cor? Uma garota gorda de classe média comparada a uma garota pobre e gorda? O que significa ser gorda, fisicamente inapacitada e bissexual? (Ou gorda, incapacitada e sexual, num todo?)

Veja, claro, ainda sou uma pessoa de verdade, e não estou sempre a vontade com o papel de revolucionária. Às vezes já é difícil o suficiente pra mim simplesemente sair da cama pela manhã. Às vezes é dificil o suficiente simplesmente falar com as pessoas, sem ter que lidar com as nuances políticas de tudo o que sai de suas bocas. Sem contar o fato de que eu faço toneladas de trabalhos em relação à opressão de gordxs, e que eu tenho trabalhado tão tão duro na minha imagem corporal, quando existem situações em que eu realmente odeio meu corpo e não quero lidar com ser forte o tempo todo. Porque eu sou forte e tenho pensado essa questão de tantas maneiras diferentes, e eu realmente tenho uma autoestima naturalmente elevada, cheguei num ponto onde posso dizer honestamente que amo o meu corpo e que sou feliz sendo gorda. Mas ocasionalmente, quando me olho no espelho e vejo esse corpo que é tão diferente dos das minhas amigas, tão diferente do que me disseram de como ele deveria ser, eu quero me esconder e nunca mais lidar com isso de novo. Nesses momentos não me parece justo que eu tenha sempre que lutar para ser feliz. Não seria mais fácil simplesmente desistir e partir para outra dieta para que eu possa parar com esta luta permanente? Então eu poderia ainda apoiar a fat grrrl revolution sem que me afetasse pessoalmente em todos os sentidos. E eu sei, eu sei eu sei que não é a resposta e que eu nunca faria isso comigo mesma, mas eu não posso dizer que é algo que nunca passou pela minha cabeça.

E não ajuda muito quando minhas amigas e minha família, que sabem como eu me sinto em relação a isto, continuam a fazer declarações anti-gordas e reclamando do quão gordas elas se sentem e mencionando novas dietas das quais ouviram a respeito e que estão morrendo para experimentar. "Estou parecendo uma melancia." "Uau, estou tão feliz, agora eu visto tamanho sete ao invés de nove." "Gosto deste espelho porque ele me faz parecer mais magra".

Não consigo entender como elas ainda podem pensar desse jeito quando eu estou constantemente falando destes assuntos, e não acredito que elas achem que seja o tipo de coisa ok para se falar na minha frente. E não é como se eu quisesse censurar suas conversas perto de mim.. Eu só não quero que elas pensem dessa maneira. Eu sei que a maior parte disto reflete o jeito que elas se sentem em relação a elas mesmas e que não é a intenção me atacar ou invalidar o meu trabalho, mas isto faz com que seja muito mais difícil para mim. Isto coloca todos esses pensamentos dentro de mim. Hoje eu estava parada fora do trabalho quando eu vi um reflexo meu numa janela e pensei "Ei, eu não pareço tão gorda!" e eu imediatamente percebi o quão ferrada essa ideia era, mas que nem por isso me fez parar de me sentir mais atraente.

Eu quero isso fora de mim, não faz parte de mim, e teoricamente eu posso separar tudo e jogar fora toda a merda, mas ela nunca vai embora de verdade. Quando isto vai acabar finalmente? Quando poderei mudar para outras questões? Nunca vai acabar, e isso é muito difícil de aceitar.

Estou sobrevivendo neste sistema de opressão através de minhas memórias, e até mesmo quando não estou pensando a respeito, elas estão lá, influenciando tudo o que eu faço. Cinco anos de idade, minha primeira dieta. Sete anos, sendo declarada oficialmente "acima do peso" por pesar cinco quilos a mais do que uma criança "normal" de sete anos de idade deveria pesar. Dez anos de idade, aprendendo a passar fome de propósito e ser feliz me sentido constantemente tonta. Treze anos de idade, passando do limite que me faz ser maior do que minhas amigas para ser de fato "gorda". Quinze anos, ouvindo os garotos na sala ao lado falar sobre o quão gorda (e logo, não atraente) eu sou. Sempre que me apresento, eu me lembro quando meu pai dizia que ele não gostou da coreografia que eu fiz porque eu parecia gorda enquanto dançava. Toda vez que pinto o meu cabelo eu lembro quando minha mãe não me deixava tingir o cabelo na sétima série porque ver gente gorda de cabelo pintado fazia com que ela pensasse que elas estavam apenas tentando acobertar o fato de que eram gordas, tentando parecer interessantes a despeito disso (quando claro que é óbvio que é o que elas realmente devem fazer se elas querem parecer atraentes, certo?) E essas são grandes lembranças para as quais eu posso apontar e dizer, "Isso dói." Mas e o que dizer de toda uma vida de mídia a qual eu fui exposta que me diz que só pessoas magras são amáveis, saudáveis, bonitas, talentosas, divertidas? Eu sei que estas mensagens estão lá, guardadas junto com o resto de minhas lembranças, mas eu simplesmente não posso rotular nem a elas nem aos efeitos em minha mente. Eles são elusivos e não necessariamente causam dor na hora. Eles estão bem disfarçados e amiúde parecem sedutores e românticos. (Nunca vou me apaixonar porque eu não posso ser levantada e girada no ar por ninguém...)

Por toda a minha vida a mídia e todos ao meu redor me disseram que ser gorda é feio. O que claro é apenas um padrão cultural que tem muitas, muitas mentiras médicas as quais recorrer. Estudos mostram que pessoas gordas não são saudáveis e tem baixa expectativa de vida. Estudos também mostram que pessoas famintas tem essas mesmas particularidades. Estes riscos de saúde para as pessoas gordas provam ser um resultado de contínua inanição -- regimes -- e não de serem gordas por si só. Eu não sou gorda devido à falta de força de vontade. Sou vegetariana desde os dez anos. Controlar o que eu como é fácil pra mim. Passar fome não é (apesar de que pela maior parte da minha vida eu desejasse que fosse). Meu corpo é para ser assim, e eu estive em um monte de regimes nos quais eu perdi peso por um período de vários meses e depois ganhei tudo de volta. Há dois anos eu finalmente acabei com esse ciclo. Não faço mais dietas para emagrecer porque eu sei que é assim que o meu corpo é para ser, e é assim que eu quero ser. Ser gorda não me faz ser menos saudável ou menos ativa. Ser gorda não me faz menos atraente.

Vejo na TV uma mulher magra dançando com um rapaz espetacularmente bonito, e sobre esta cena eu ouço, "Nunca fui feliz até ir para o [preencha o espaço vazio com algum programa de emagrecimento], mas agora eu recebo toda a atenção dos homens e eu me sinto tão bem! Não tenho que me preocupar com o que as pessoas dizem a meu respeito pelas minhas costas, porque eu sei que estou bonita. É um dever seu se dar a vida que você merece. Ligue para [preencha o espaço vazio com algum programa de emagrecimento] e comece a perder cinco quilos imediatamente!" A televisão me mostra um close-up de uma garota gorda aos prantos que diz "Eu tentei de tudo, mas nada funciona. Eu perco dez quilos, e ganho onze. Me sinto tão envergonhada. O que posso fazer?" A primeira vez que vi esse comercial eu comecei a chorar e memorizei o número na tela. Eu conheço esse sentimento de vergonha. Eu conheço o sentimento de não ter mais o que tentar, de sentir que sou inútil por não conseguir perder toda aquela "gordura indesejada". Mas eu sei que a infelicidade não é um resultado do fato de eu ser gorda. É um resultado da sociedade que me diz que por ser assim, sou ruim.

Onde está a revolução? Meu corpo é lindo, e toda vez que me olho no espelho e percebo isto, estou contribuindo com ela.

Sinto que, nesse ponto, se espera que eu tente provar a você que ser gorda pode ser lindo, com descrições de "coxas com estrias e traseiros grandes e macios". Não vou fazer isso. Não cabe a mim convencer ninguém de que ser gorda porde ser atraente. Me recuso a ser auto-intitulada a rainha do pornô tamanho grande. Você tem que descobrir por si só.

Não é o suficiente você me dizer que "não julga por aparências" -- então ser gorda não lhe incomoda. Ignorar seus corpos e "julgar apenas o que está dentro de nós" não é a resposta. Isto parece acompanhar a mesma linha de raciocínio daquela brilhante escola de pensamento chamada "humanismo": "Nós somos todxs pessoas, então vamos ignorar trivialidades como raça, classe, gênero, preferência sexual, tipo físico e assim por diante". Besteira! Quanto mais ignoramos estes aspectos de nós mesmos, mais vergonhosos eles se tornam e maior é a expectativa de de ser o que geralmente é imposto quando esses atributos não são dados -- branco, hetero, rico, magro, macho. É ilusório tentar fazer vista grossa para essas diferenças exteriores (e logo insignificantes, certo?), porque nós ainda estamos sofrendo lavagem cerebral com a mesma porcaria que todo mundo. Desse jeito nós só estamos não falando a respeito. Eu não quero que me digam, "Sim, você é gorda, mas você é linda por dentro". É apenas mais um jeito de me dizer que sou feia, que de jeito nenhum eu sou bonita por fora. Ser gorda não é igual a ser feia, não me venha com essa. Meu corpo sou eu. Eu quero que você veja meu corpo, conheça meu corpo. A verdadeira revolução vem não de quando a gente aprende a ignorar nossa gordura e fingir que não somos diferentes, vem de quando aprendemos a usar isto em nosso favor, quando aprendemos a desconstruir todos os mitos que propagam o ódio axs gordxs.

Minhas amigas magras são constantemente reconhecidas pelo feminismo mainstream enquanto eu sou ignorada. A mentalidade mais difundida em relação à imagem corporal é algo do tipo: Mulheres se olham no espelho e pensam, "Eu sou gorda", mas elas não o são realmente. De fato elas são magras.

De fato elas são magras. Mas eu sou, de fato, gorda. De acordo com a teoria feminista mainstream, eu sequer existo. Eu sei que mulheres frequentemente se olham no espelho e pensam que são maiores do que são. E sim, é um problema. Mas a análise não pode parar por aí. Há mulheres que são gordas, e é preciso lidar com isto. Ao invés de simplesmente confortar as pessoas, "Não, você não é gorda, você é apenas curvilínea," talvez devêssemos desmistificar o ser-gorda e lidar com a situação como um todo. E eu não quero dizer talvez, quero dizer que é uma necessidade. Uma vez que percebemos que ser gorda não é "inerentemente ruim" (e eu não posso nem acreditar que estou escrevendo isto -- "inerentemente ruim" -- soa tão ridículo), então poderemos trabalhar o probelma como um todo ao invés de lidar apenas com uma parte insignificante dele. Todas as formas de opressão trabalham juntas, portanto elas devem ser combatidas juntas.

Acredito que muitas autoras do feminismo mainstream que dizem lidar com este assunto o estão fazendo de um jeito muito errado. Susie Orbach, por exemplo, com "Gordura é uma questão feminista" (Fat Is A Feminist Issue) nos diz: Não faça regime, não tente perder peso, não alimente a indústria da dieta, mas aí ela prossegue e diz: Mas se você se alimentar bem e se exercitar, você perderá peso! E eu sinto que é ótimo, legal, é tão maravilhoso que tenha funcionado para ela, mas ela não entendeu do que se trata. Ela está tentando ajudar as mulheres, mas na real está nos machucando. Nos machucando porque ela está dizendo que ainda só há um corpo que é bom para nós (e ela é quem vai nos ajudar a alcançá-lo!) É quase como aquela mulher do "Chega de Neura!" (Stop The Insanity), Susan Powter. Uma de minhas amigas leu o livro dela e disse que a primeira metade toda trata de opressão contra o corpo gordo e diz como é difícil ser gorda em nossa sociedade, mas aí ela diz: Então siga minha nova dieta! Esse tipo de coisa mexe tanto com nossas emoções que pensamos, "Uau, essas pessoas realmente me entendem. Elas sabem de onde vim, então devem saber o que é melhor para mim".

E existem então tantas razões "liberais" para perpetuar o ódio axs gordxs. Sim, nós finalmente descobrimos que regimes nunca funcionam. Como, então, devemos explicar esta montruosidade horrorosa? E como podemos nos livrar dela? A nova visão "liberal" em relação à gordura é de que ela é causada por distúrbios psicológicos profundos. A infância dela foi ruim, ela foi abusada sexualmente, então ela come e fica gorda para que possa se esconder de tudo. Ela usa a sua gordura como um escudo protetor. Ou talvez quando ela era pequena, seus pais fizeram com que associasse comida com amor e conforto, então ela come como consolo. Ou então, como aconteceu comigo, seus pais sempre estavam fazendo dietas para emagrecer e sempre a importunando em relação ao que estava comendo, e aí a comida se tornou algo do qual se envergonhar e que deve ser escondida e mantida em segredo. E por um bom, bom tempo eu realmente acreditei que se meu pais não tivessem me infundido com todas essas atitudes de merda em relação à comida, eu não seria gorda. Mas foi aí que percebi que tanto meu irmão quanto minha irmã cresceram exatamente no mesmo ambiente que eu, e ambos são magros. Obviamente não é a razão pela qual eu sou gorda. Terapia não vai ajudar em nada, porque não há nada para ser curado. Quando vamos parar de nos agarrar a motivos para odiar gente gorda e perceber que a gordura é totalmente normal e uma coisa natural que não deveríamos nos livrar dela?

Fora o que eu disse antes sobre minhas amigas falarem coisas que realmente doem em mim, eu percebo que elas são, na real, bastante fora do comum. Não quero fazer parecer que elas sejam negligentes, pessoas ignorantes. Eu estou constantemente tratando desses assuntos e sinto que eu geralmente tenho a capacidade de confrontar minhas amigas quando elas agem insensivelmente, e elas vão entender ou ao menos tentar. Às vezes quando saio do meu círculo isolado de amigxs eu fico chocada com o "mundo real". Ouço garotos no ônibus referindo-se às suas namoradas como se fossem suas "putas", vejo mulheres gordas sendo alvo de importunações nas ruas, assisto TV e vejo como cada pessoa gorda é retratada como uma idiota obsessiva por comida, vejo mulheres tratadas como propriedade de homens que vêem a masculinidade como direito de poder... Eu deixo estas situações sentindo que a cena punk, na qual a maioria das minhas interações acontecem, é um abrigo. Eu não posso me imaginar vivendo numa comunidade onde eu não tenho para onde ir em busca de apoio. Não posso me imaginar vivendo no "mundo real".

Mas aí eu tenho de lembrar que estas situações ainda estão lá, na minha comunidade -- as mesmas atitudes ferradas são disseminadas no meio punk também; elas apenas tomam uma forma mais sutil. Sinto como se estas questões estão finalmente começando a ser reconhecidas e trabalhadas, mas o ódio axs gordxs é ainda um padrão. Claro que todo mundo concorda que não devemos fazer regime e que os distúrbios alimentares resultam de nossa sociedade repressora, porém geralmente a coisa não é levada muito além disso. Parece que as pessoas têm essa idéia de que o punk é desligado da mídia. Isso porque somos essa cultura cool e underground, somos imunes aos sistemas de opressão. Ainda assim, os mais legais, mais punks são os jovens magrxs. E os mesmos jovens legais que curtem tanto desafiar a "Amerika" capitalista são os que dizem que a gordura é o símbolo da riqueza e da ganância do capitalismo. Aham, é um jeito novo e diferente de pensar: Culpe a vítima. Espalhe a opressão institucionalizada. Pessoas gordas não são as que estão oprimindo esses pobres garotos emos e magrelos.

Este texto é para ser sobre opressão ao corpo gordo. Sinto como se fosse disso que eu sempre falo. Às vezes sinto que toda minha identidade se encerra na minha gordura. Quando estou inteiramente consciente de que sou gorda isto não pode ser usado contra mim. Fora do meu grupo seleto de amigos, em situações hostis, estou constantemente ciente de que a qualquer momento posso ser importunada. A menor das discussões com outra pessoa pode levar a um bombardeio de insultos ao meu corpo. Estou sempre pronta para isso. Descobri que isto não acontece tanto quanto eu esperava que acontecesse, mas ainda assim sempre fico atenta às possibilidades. Eu sou "a Garota Gorda." Eu sou "a Garota Que Fala De Opressão". Dentro do meio punk, é o meu escudo protetor. As pessoas me conhecem e conhecem o meu trabalho, então eu presumo que elas não vão rir do meu corpo pelas minhas costas. E se elas rirem, aí eu sei que terei apoio de outras pessoas ao meu redor. A cena punk me concede um monte de apoio que eu sei que eu não conseguiria em qualquer outro lugar. Sou capaz de publicar zines, fazer música, performances de spoken-word que são intensamente pessoais para mim. Eu me sinto realmente forte por não manter nada em segredo. Eu posso regredir ao velho clichê de que o Pessoal é Político, e não importa o quão banal isso possa soar, é a verdade. Passei tanto tempo sem nunca falar sobre ser gorda, de como isso afeta a minha auto-estima, sem nunca falar sobre as maneiras pelas quais eu sou oprimida por esta sociedade. Agora estou falando. Estou falando o tempo todo, e as pessoas me ouvem. Eu tenho apoio.

E ao mesmo tempo eu sei que tenho de ser cautelosa em relação a este apoio que recebo. Porque eu acho que para algumas pessoas isso é apenas visto como uma coisa legal, que ao me apoiar elas estão, de certa forma, recebendo um tanto de reconhecimento dentro do meio punk. Mesmo que eu seja totalmente aberta e não mantenha segredos, eu tenho que me proteger.

Esta é a revolução. Eu não entendo a revolução. Não posso colocar tudo no preto e no branco e dizer o que revolucionário e o que não é. A cena punk é revolucionária, mas não dentro dela, ou por ela mesma. Feminismo é a revolução; é solidariedade assim como é crítica e confrontação. Está é a fat grrrl revolution. É minha, mas não me pertence. Fuckin' yeah.

© Nomy Lamm 1995. Retirado do livro Listen Up: Voices From The Next Feminist Generation, editado por Barbara Findlen e publicado pela Seal Press.

Visite o site oficial de Nomy: www.nomylamm.com (em inglês)

Download dos álbuns:
Anthem, 1999: http://rapidshare.com/files/274829956/nomylamm_anthem1999.rar.html

Effigy, 2002: http://rapidshare.com/files/275259223/nomylamm_effigy2002.rar.html

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Alix Olson

Abordando temas como o feminismo, a opressão do patriarcado, do capitalismo, heterosexismo, homofobia, transfobia, misoginia e do sexismo em geral, a ativista/artista americana Alix Olson é conhecida pelas suas performances de leitura de poesia folk e música.

Lésbica e feminista socialista, Alix começou a se apresentar publicamente em 1997. Adotando o Spoken Word como forma de se expressar, consolidou sua carreira apresentando-se em turnês e a partir daí tornou-se reconhecida internacionalmente. Em 2001 lançou seu primeiro álbum, "Built Like That", pelo selo Subtle Sister Productions (da própria Olson). Ao longo de 22 duas faixas, Alix solta a sua língua ferina atacando as Instituições e suas convenções sexistas sem dó, com tiradas de humor ácido ou provocações, como em "Cute for a Girl" quando versa: Deus seria sapatão se ela pudesse encontrar alguém para abraçá-la (God would be a dyke if she could find someone to hold her). Ataques diretos à sociedade de consumo norte-americana e à guerra e ao militarismo e até mesmo experiências pessoais e desabafos fazem parte da infinidade de assuntos que consegue abordar. A capacidade e a facilidade com que lida com as palavras e a sua presença de espírito são impressionantes, em outra das faixas, por exemplo, ouvimos uma perspectiva feminista, um outro olhar para as histórias das 'princesas' e 'heroínas' dos contos de fadas e dos mitos e das historinhas de ninar em geral:

Um dia, eu disse "Branca de Neve, volte a estudar".
Ela disse "Não, não posso, eu me sentiria uma tola. Sabe, é difícil para nós mulheres sermos nós mesmas, nós passamos nossas drogas de vidas inteiras tomando conta de pequenos elfos"
(One day, I said "SnowWhite, go back to school".
She said "No, I can't, I'd feel like a fool. You know, it's hard for us womyn to try to be ourselves,
we spend our whole damn lives taking care of little elves")

Ainda é difícil encontrar artistas femininas de spoken word. Anne Clark, Patti Smith e Miranda July são exemplos de mulheres que se apresentam em performances recitando suas poesias e suas canções. Sobre sua posição muitas vezes qualificada como "radical", Alix Olson diz: "Acredito que qualquer artista que confronte o status quo será taxada de 'controversa'. Também seremos chamadas de raivosas, agressivas, ou no melhor dos termos, 'idealistas,' para que sejamos descartadas e largadas na sarjeta, e nosso poder murchado. Mas eu nunca me senti intimidada pelas palavras, pois elas sempre estiveram ao meu lado."




Mais sobre Alix Olson - www.alixolson.com (Em inglês)

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