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domingo, 20 de junho de 2010

CAFé-debate feminista 26 de junho


A proposta do evento CAFé promovido pelo Coletivo de Ação Feminista é de começar um espaço cultural ou contracultural feminista, assim como para a visibilidade e incentivo produção de mulheres e para o debate político, exposição de idéias e contestação dos modelos impostos de vida. Um espaço de criatividade, que estimule a produção independente e a formação de outros agrupamentos políticos, apoio a estilos de vida alternativos aos regimes repressivos, ao patriarcado e de enfrentamento ao capitalismo, contrários à lógica de mercado e ao autoritatismo político.

Dar a voz a nós mesmas e divulgar a desconstrução do gênero e das relações assimétricas é um dos passos a serem dados pelas iniciativas feministas. CAFé é o primeiro de muitos espaços a serem tomados politicamente, pois a idéia é de que surjam sempre novas idéias e atitudes e fortalecer o cenário cultural feminista e anti-patriarcal.

Nossas ações são abertas para atingir todxs que estão implicados na construção de outras possibilidades de vida, por isso a presença de todxs que devem aprender do feminismo: homens, mulheres, jovens, velhxs...e neste caso o privilegiamento da voz de garotas numa sociedade em que não temos vozes e queremos começar a falar e nos expressar, repudiar e construir alternativas, fazer visível as limitações e repressões que se tornaram rotinizadas.



DIA 26 DE JUNHO, SÁBADO às 14h

Onde: Inkustom Tattoo Estúdio - Trajano Reis, 335 - próximo ao Largo da Ordem.

Entrada: R$ 5,00.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Entrevista com Nomy Lamm

Há um tempo já, publicamos aqui no blog a tradução do texto It's a Big Fat Revolution escrito em 1995 pela de-quase-tudo-um pouco Nomy Lamm. No final do ano passado (2009) fizemos uma entrevista por e-mail com ela, para publicar na segunda edição do nosso zine impresso. Como não é todo mundo (ainda) que pode ter acesso a ele, colocamos aqui, na íntegra, as perguntas e respostas. Nomy é uma pessoa hiper atenciosa, admirável e foi muito legal manter este contato com ela. Segue a entrevista:

CAF: Antes de mais nada, muito obrigada por fazer esta entrevista com a gente. Queremos saber como e quando você acha que entrou em contato com o feminismo pela primeira vez e se sua música e sua arte acabaram sendo uma forma natural de juntar tanto suas ideias quanto seus sentimentos numa coisa só.
NOMY LAMM: A primeira coisa da qual me lembro é de falar sobre feminismo com um grupo de amigas quando eu era adolescente. Minhas amigas e eu fazíamos festas do pijama durante todo o ensino médio, por mais que seja algo que geralmente as garotas mais novas façam. Nós assistíamos a filmes, comíamos besteira, contávamos nossos segredos umas para as outras, falávamos sobre o que estávamos aprendendo e sobre o que estávamos pensando, sobre nossos corpos e sexo e amor e o mundo... quando o tema "feminismo" apareceu nós todas dissemos que não nos identificávamos com ele, eu acho que pensamos que isto significava que mulheres não deviam usar maquiagem e deveriam tentar ser poderosas executivas de sucesso. Por volta dos meus 16 anos eu estava numa banda só de meninas e quando eu tinha 17 eu me identifiquei como uma riot grrrl e passei a admitir a minha raiva. Eu sentia como se houvesse uma mágica que acontecesse entre meninas quando nós confiávamos umas nas outras, e eu me sentia protetora disso. Eu comecei a dedicar a minha vida a escrever e trocar zines com outras garotas, fazer música com elas, travestir-nos e outras formas de performance em espaços onde as garotas estavam no comando...

CAF: Você escreveu "It's a Big Fat Revolution" dizendo que muito do seu trabalho com o feminismo e a cena punk. Como você vê a conexão entre ambos?
NL: Na época em que escrevi este ensaio eu estava no meio de um movimento cultural de garotas na cena punk (riot grrrl). Havia uma massa crítica de meninas que estavam animadas em fazer as coisas, em serem ativas e o centro de nossos próprios mundos, e estávamos cansadas de estar no fundo de uma cena dominada por garotos. Nós concentramos o espírito rebelde do punk rock no feminismo, e as críticas radicais do feminismo no punk rock.

CAF: Geralmente o punk se constrói dentro de uma contra-cultura, sem sair muito de seu meio. Como você se sente tendo o seu trabalho reconhecido fora dessa cena (e agora sendo lido em outras línguas)?
NL: Fico feliz que meu trabalho, especialmente este ensaio ("It's a Big Fat Revolution") e os zines que eu escrevi ("I'm So Fucking Beautiful") tenha atingido a tantas pessoas. É muito legal que depois de tantos anos eu ainda ouça de pessoas que acabaram de se deparar com coisas que escrevi quando era uma adolescente e que tiraram algo disso. O trabalho de libertação gorda com o qual eu comecei a me envolver quando eu tinha 17 anos tem um alcance amplo, é aplicável ao punk mas também pra qualquer um que tenha aprendido a gordofobia de sua cultura. A própria "Guerra contra a obesidade" que vem acontecendo nos EUA está criando um ambiente onde nossos corpos não são consideradas como a "causa" da doença, eles estão sendo considerados como "a doença". Então eu fico feliz que a minha voz possa ainda fazer parte do combate a estas mensagens, aqui nos Estados Unidos e fora dele.


CAF: Também em seu texto você disse que há uma revolução acontecendo, mas nada que fosse aparente para a cultura mainstream ainda. Isso foi em 1995. Agora estamos em 2009... muita coisa mudou?
NL: Essa é realmente uma boa pergunta. Eu acho que muita coisa mudou de certa forma, há um movimento de libertação gorda muito maior que está enxergando as políticas da gordura dentro de um sistema de opressão mais amplo. Muitos dos ideais pelos quais eu estive lutando quando era adolescente acabaram se tornando parte da minha realidade diária de uma forma que eu não poderia ter adivinhado. É revolucionário para mim que eu possa viver num contexto queer, feminista, sexo-positivo, positivo em relação ao corpo, transgressor de gênero, politicamente radical e anti-racista em que estes são os valores pressupostos, e meu trabalho é sobre aprofundar em vez de lutar o tempo todo contra um inimigo visível. Por outro lado, a visão que eu tinha de uma transformação de todos os sistemas de autoridade e de opressão institucionalizada em uma realidade centrada em comunidade e amor ao corpo e à terra, bem, isso não aconteceu realmente. Digo, os Estados Unidos é uma merda politicamente e economicamente, tão interligado com esses velhos sistemas de poder que eu não tenho certeza se realmente temos a capacidade de mudar. Eu frequentemente me sinto derrotada. Minha namorada Melodie disse outro dia que ela acha que essa sensação de derrota está conectada com o processo de se livrar da identificação com o poder. Tipo quando eu era mais jovem e acreditava no sistema em que vivia porque eu acreditava que ele poderia ser transformado, e na medida em que eu envelheço, mais desiludida eu fico em aceitar que eu sou uma serva. Eu gostaria de ter essa crença confrontada, quero acreditar que podemos mudar o mundo, que nossos esforços não tem de ser mediados por um sistema de poder que quer cooptar nosso trabalho.

CAF: Você acha que essa gordofobia toda está relacionada apenas aos padrões de beleza/questão de "saúde"? O que você acha que se esconde por trás disso?
NL: Acho que os padrões de beleza e as questões de saúde meio que surgiram de uma tendência cultural focada em padronizar nossas vidas, alimentação, roupas, corpos (locais de trabalho, moradia, etc etc) ao longo dos últimos séculos com a Revolução Industrial. E eu acho que a pessoa gorda acaba se tornando um bode expiatório conveniente.

CAF: Houve alguma situação específica de opressão que você gostaria de compartilhar que a fez perceber que as coisas não estavam certas, ou foi como um bocado de experiências acumuladas?
NL: Eu fiz dieta por tanto tempo, desde os meus cinco anos de idade, e cresci num ambiente familiar com um pai bulímico, e experimentei traumas médicos e sexuais quando jovem, que a partir do momento em que tive espaço para falar a respeito disso tudo, as coisas simplesmente deram um clique dentro de mim. Foi um alívio e tanto poder ver um sistema que estava criando essas experiências em vez de achar que havia algo de errado comigo ou que eu merecia isso tudo.

CAF: Você disse que o fato de ter nascido com uma perna não influenciou tanto a sua imagem corporal tanto quanto ser gorda o fez. Você acredita que isso pode ter sido influenciado de certa forma por uma sociedade que tende a ter pena de pessoas com alguma deficiência física e satanizar/culpar as pessoas gordas?
NL: Eu acho que é uma boa possibilidade. Era assim que eu me sentia na época em que escrevi esse ensaio [It's a Big Fat Revolution], mas eu não lidei de fato com o meu trauma de ter perdido meu pé ou de usar uma prótese que teve um preço alto no meu corpo. Eu sabia que a minha deficiência não era minha culpa, enquanto que eu sempre era levada a crer que ser gorda era fruto da minha própria fraqueza. Quando eu me acertei com a minha gordura, minha sexualidade [queerness], meu gênero, eu tive que lidar com a experiência física de meu corpo que de várias maneiras havia sido moldado pela minha deficiência. Meu corpo foi problematizado no meu nascimento e meu pé foi amputado por motivos basicamente não-médicos, então eu acredito que esta tenha sido uma razão determinante para que a opressão que eu experimentei em relação ao meu corpo tenha me marcado tão profundamente.

CAF: Ainda sobre influência, você chegou a crescer em um ambiente religioso? Houve algum conflito entre você ser judia e lésbica, e como isso pode ter afetado sua música e visão política?
NL: Eu cresci numa congregação que não teve um rabino até que eu completasse treze anos, e que depois se afiliou como reconstrucionista, que é uma ramificação conhecida por ser mais progressiva socialmente. Eu acho que foi difícil pra mim ter que me assumir em Olympia onde cresci porque minha família e todas as mesmas pessoas que já me conheciam desde que eu era uma criança ainda tinham as suas atenções voltadas para mim, mas eu não recebi muitas mensagens religiosas homofóbicas por parte dessa comunidade. Eu investi muita energia para integrar minha sexualidade [queerness] e o judaísmo e deficiência física e feminismo etc, entendendo o que eu acreditava e como tudo pode se complementar. Ser judia teve um grande impacto na minha sensibilidade musical.

CAF: Você está envolvida em algum projeto musical ultimamente? E não musical?
NL: Nomy Lamm & THE WHOLE WIDE WORLD. É basicamente uma plataforma para colaborar com um monte de pessoas diferentes e fazer com que tudo tome parte de um projeto coeso. Tenho trabalhado com um pedal loop e apresentação de slides de fotos, usando música pré-gravada criada por mim junto de outrxs artistas, e cantando e fazendo looping ao vivo no palco. Eu só tenho gravações caseiras por ora, espero gravar um novo álbum no próximo ano ou algo assim. Eu também toquei algumas músicas recentemente com um projeto de banda chamado OBEAST, e foi muito legal. Além disso eu estou fazendo pós-graduação trabalhando num mestrado sobre escrita criativa, e eu acabei de escrever uma peça curta chamada "Embroiled" que será produzida na temporada pela Jump! (uma companhia de teatro que produz trabalhos que mostram representações autênticas de doenças mentais).

CAF: Por último mas não menos importante, há algo que você gostaria de adicionar/dizer/reclamar? :-)
NL: Minhas costas dóem bastante agora, e eu tenho que me vestir e ir ao dentista. Acho que é toda a reclamação que tenho para fazer no momento. Muito obrigada por me entrevistar, estou animada em fazer parte do zine! Um alô para as feministas brasileiras, é uma honra me envolver com vocês.

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Nomy Lamm ao vivo, @ the Big Gay Cabaret


terça-feira, 23 de março de 2010

Feminismo? Por que Feministas?

O Feminismo é um movimento social e uma ideologia política que geralmente é definido como a luta pela igualdade de condições entre homens e mulheres, mas que na verdade se expande para incluir a igualdade entre todos seres humanos e o respeito a todas formas de vida. De fato, desde os 60, feministas vieram lutando para que mulheres fossem reconhecidas como, mais que mulheres, seres humanos assim como os homens e qualquer outro gênero, assim afirmando a sua dignidade humana e desmistificando as noções clássicas que ditam o que mulheres e homens são ou devem ser, e as supostas diferenças entre esses.

Embora o termo feminismo ou feminista seja recente, não significa que mulheres nunca tenham lutado, ao longo da história, pela sua liberdade e afirmação. A resistência de mulheres sempre existiu, talvez um dos mais antigos registros de uma resistência de mulheres tenha sido a caça às bruxas durante a Inquisição Medieval, onde muitas mulheres que saiam do que era esperado delas - subordinação, obediência, resignação - mulheres que ousavam ocupar áreas de atividade e trabalho não permitida à mulheres, eram denunciadas e mortas, queimadas publicamente como 'ameaças à ordem'. Mulheres que expressaram alguma rebeldia e insubmissão ao longo do tempo podem ser vistas como feministas. Mesmo assim, por maior que seja o medo de mulheres de contestar as injustiças que presenciem, sempre há um grau de incômodo em todas mulheres, que às vezes são expressos em depressões e ansiedades, ou em pequenos e invisíveis sabotagens - queimam a comida, atrasam o expediente, 'nunca vencem a casa' demonstrando não-adaptação aos modelos exigidos delas.

Mulheres no começo do século XX passado sentiam muita inquietação e descontentamento por não se verem em possibilidades de exercerem todos seus potenciais, pois apenas eram permitidas atuarem no campo doméstico e não participar da vida pública de sua sociedade. Mulheres de classes mais pobres eram, pelo contrário, sobre-exploradas, situação que permanece, e assim se organizaram em movimentos de reinvindicação de melhorias nas condições de trabalho.

De onde vem a subordinação da Mulher?

Aprimorando suas análises, as feministas vão dizer, então, que a base da opressão sobre mulheres é o chamado Patriarcado, regime da dominação masculina, estabelecido pelo direito paterno na fundação da família. Nesta, surgem as divisões de trabalho doméstico e social, divisão que é falsa pois o trabalho de casa (incluindo aí toda gerência da família e seu bem-estar, o cuidado e criação dos filhos, a satisfação dos membros) é um trabalho social indispensável para que o Capitalismo se garanta. O trabalho feminino, de fato, é o mais sobrecarregado de todos, invisível - por não ser admitido como trabalho e sim como algo obrigatório derivado de sua condição de 'mulher' e 'mãe' - e sem reconhecimento social, não remunerado. Portanto, trata-se de um trabalho escravo.

Esse mesmo regime econômico (economia como sendo a administração dos meios de vida) precisou criar as classes sexuais como as conhecemos, homem e mulher, onde o primeiro representa os atributos da atividade, força, liderança, poder e o segundo passividade, impotência, obediência e dependência. Assim sendo, a origem de todas categorias de opressão - senhor/servo, patrão/subordinado, opressor/oprimido - surgem da divisão primeira da humanidade entre homens e mulheres. Todo oprimido, nas análises feministas, é ‘feminilizado’. A feminilidade é uma construção cultural que nos molda nos sujeitos que devemos ser, assim aprendendo desde cedo como 'funcionar' no sistema para que esse continue também 'funcionando' adequadamente. Isso significa que todos oprimidos têm algo em comum também, e que Racismo, Homofobia, Especismo (exploração dos animais), Classismo são lutas feministas pois, quando atacam os direitos de um destes grupos, atacam aos nossos também e de nós todos. A nossa Libertação só existirá quando todos forem Livres.
Então, enquanto as análises críticas de todos movimentos sociais não incorporarem as noções feministas não poderemos almejar uma profunda e verdadeira transformação social, já que o regime patriarcal é o mais antigo de todos e se ele permanece, mantêm reproduzindo os modelos e opressões que originam as sociedades Capitalistas, Imperialistas, colonizadas e militarizadas.

Feminismo é o contrário de Machismo?

Feminismo não significa extinção de homens, nem opressão à homens (geralmente isso é usado como uma forma de censura, perseguição e divulgação de um anti-feminismo e para que outras mulheres tenham medo de assumir a luta). Feminismo tampouco é a afirmação de um 'poder feminino', já que tal poder não existe numa sociedade de dominância masculina, e constitui uma defesa que geralmente significa 'poder de barganhar algo através da prostituição', e também nem seria estratégia reivindicar ser o feminino construído pelos homens. Mesmo que uma mulher tenha algum 'poder', com razoável independência financeira e inserção no mercado capitalista, o fato de estar no contrato de trabalho representa que não possui poder real, e principalmente: coletivamente não possuímos poder. A Liberdade que o feminismo reinvindica não é a Liberdade de Mercado nem a liberdade de ser um nicho de mercado (consumo de produtos de beleza, etc.) nem a Liberdade de entrar no contrato necessariamente desigual do trabalho assalariado. Feminismo luta pelo poder coletivo de mulheres, nas suas vidas para fazerem decisões e na vida pública para sua verdadeira participação nas decisões sociais, assim como verdadeiras condições de trabalho e de realização e desenvolvimento pessoal. Aliado a outras lutas, o feminismo luta pelo Poder Popular, para que o Governo seja o governo social do Povo.

O ‘Poder’ foi disputado como uma estratégia feminista no começo de suas movimentações, e hoje ainda permanecem pautas por maior inclusão nos cargos governamentais, nos partidos e outros. Embora tenha sido uma estratégia que trouxe alguns ganhos, vem demonstrando dispersar movimento em sua atuação realmente revolucionária: com as classes sociais populares, em movimentos de moradia, terra, indígena, comunitários e de bairro. Nossa libertação e a revolução não será dada pelos que estão no Poder. O Estado e o Governo surgem junto com Patriarcado e estruturalmente (para o fim que foram concebidos) existem para apoiar os grupos que estão no Poder, estes que comandam o tráfico internacional de mulheres, que invadem países, promovem guerras, destróem meio ambiente, poluem águas e dominam vastos territórios de terras e envenenam o solo, invadem nossa vida com bens de consumo que não trazem a felicidade e que muitas vezes nos matam com produtos químicos usados na confecção dos alimentos. O Estado e o Capitalismo fazem parcerias com movimentos sociais para ganhar sua força para seu lado, para o lado dos capitalistas, industriais e agressores, e fazem negociar nossos direitos flexibilizando nossas pautas. Atualmente com o processo de globalização, os países de terceiro mundo vêm aumentada a pobreza, e quem mais sofrem são as mulheres. A pobreza leva ao incremento da prostituição e da exposição dos filhos das mulheres ao uso de drogas e ao abandono à violência das ruas. Como o racismo veio da colonização que sofremos, negras e negros são os mais atingidos pelas políticas do chamado neoliberalismo, que vêm implantando a flexibilização das leis trabalhistas em nossos países de forma a disponibilizar mão-de-obra barata para países ricos/imperialistas e para gerar os contigentes de prostituição para o tráfico internacional.

A situação não dá indícios de estar melhorando, com desempregos todo dia e crises no 'mercado financeiro', este que agora determina nossas vidas aumentando o preço dos alimentos ou nos distraindo da dor e injustiça com bens de consumo supérfluos que se tornam acessíveis. Podemos estar confortáveis até a hora em que os impactos das políticas do patriarcado-capitalismo hegemônico chegarem até nós, mulheres, nossos familiares, filhas e filhos, companheiros/as e pessoas que amamos.

Defendemos, portanto, um Feminismo aliado às lutas populares, autônomo, combativo, radical, revolucionário e independente de bandeiras partidárias.

Mulheres venham para a luta!!

MITOS E FATOS

“Feminismo é o contrário de machismo”

MITO! Machismo é a idéia da superioridade dos homens, que se expressa na sua maior valorização social. Homens ocupam mais cargos de decisão, recebem salários maiores, são donos da maior parte das terras e riquezas mundiais. Mulheres são vistas como incapazes para certos empregos, seu trabalho é visto como complementar, mal-remunerado e seu lugar como sendo o da casa. Também são machistas as violências cometidas por homens contra as mulheres (estupros, espancamentos, agressões verbais e psicológicas, depreciação de suas capacidades e de sua vida: 'não cozinha bem, não faz nada direito, não é sexualmente atraente, está gorda'... que são formas de controle), atitudes de limitação de sua autonomia e capacidade, a presunção de que não sabem cuidar de si mesmas e precisam da proteção e apoio de um homem financeiramente, moralmente ou administrativamente. Geralmente dizer que feminismo é contrário de machismo é uma forma de inibir mulheres de assumir essa luta. O feminismo luta para que mulheres e homens sejam reconhecidos como Seres Humanos com mesmas possibilidades de desenvolvimento.

“ Feminismo é a luta histórica das mulheres por libertação!”

VERDADE! Essa liberação diz respeito a buscar uma nova identidade para as mulheres, ou seja, algo diferente do que estamos vivendo hoje, assim como uma nova forma de sociedade e de relações pautadas em novos valores. As feministas lutam pelo fim das violências contra mulheres e as lógicas de poder desiguais que o permitem, por uma sexualidade livre, conhecendo nossos corpos, o que nos dá prazer, acabando com a repressão sexual e a dupla moral que apenas permite o gozo sexual aos homens e pela liberdade de escolher nossa parceria amorosa, pela auto-aceitação, de nossos corpos e pessoas como realmente são, pela inserção das mulheres nos campos de trabalho que não os tradicionalmente femininos e por remuneração justa, pelo fim da dupla-jornada de trabalho que sobrecarrega mulheres nos trabalhos domésticos e os de ‘fora’, pelo resgate da cultura de mulheres, pela produção e expressão de nossos pensamentos nos campos das idéias e ciências, pela visibilidade lésbica que pôe em cheque a noção de que a heterosexualidade é uma premissa universal, pela saúde integral de mulheres e pela proteção do meio ambiente.

“Feministas são lésbicas recalcadas e mal amadas!”

Essa acusação é lesbofóbica e sexista. A lesbianidade aqui é definida como negativa, e é usada a estigmatização social relacionada a ela para inibir a adesão de mulheres ao feminismo assim como aos relacionamentos não-heterosexuais, e como forma de vigiar e reprimir seus movimentos e comportamentos, já que, na história, sempre que uma mulher expressou mais autonomia, vontade de crescer, estudar, ser ativa e participar da vida social, eram chamadas de 'feministas!' ou algo como 'transgressoras', 'subversivas' e... 'lésbicas'. Essa proximidade entre lesbianas e feministas se deve ao fato de que, ao longo da história, lésbicas também foram mulheres que não se conformaram aos ditames sociais e lutaram pela sua liberdade, assim como pelo fato de que o lesbianismo sempre foi visto como um perigo à ordem machista-patriarcal por representar a visibilidade de uma vida fora do contrato de submissão sexual e de trabalho doméstico com um homem.

Como nossa sociedade pune muitas vezes com morte essa escolha por mulheres e por uma vida fora do esperado para estas, chamar mulheres almejando liberdade de lésbicas é ao mesmo tempo, uma forma de tornar arriscadas suas opções políticas e contê-la, assim como também esconder a possibilidade do amor entre mulheres em sua potência revolucionária. Mulheres são ensinadas para agradar e quando expressamos nossos desejos de maior afirmação humana, nos induzem culpa por gerar 'tanto barulho e desconforto'.

O que é ser feminista então? Eu sou uma feminista?

Ser tornar feminista é conseguir se indignar com as questões expostas, de violência, falta de acesso à condições iguais de trabalho, morte, exposição de mulheres na prostituição, falta de autonomia reprodutiva nas decisões sobre seu corpo (se quero ser mãe ou não, se precisar realizar aborto estarei sem amparo e segurança legal), a invisibilidade do trabalho doméstico, a objetificação das mulheres nas mídias, a divulgação da violência sexual na pornografia, o controle que exercem sobre nosso corpo (padrões de beleza, uso obrigatório de cosméticos, demonização do aborto). Será que as feministas são ressentidas? Se é legítimo se ressentir da injustiça? Ou será que são simplesmente solidárias a todos os problemas que as mulheres sofrem? Será que para lutar por respeito e dignidade para as mulheres é ser mal-amada, ou passamos a questionar qual é o amor dos homens que nos matam, vendem e mutilam com seus padrões de beleza e definições do que é ser mulher?

(Por Coletivo de Ação Feminista. Contato: acaofeminista@gmail.com - http://acaofeminista.blogspot.com )

sábado, 6 de março de 2010

Manifesto 8 de março


"Estamos aqui pelos 100 anos de 8 março. Se nos vestimos de preto é porque estamos de luto e se nos escondemos é porque não vivemos seguras como mulheres no Patriarcado, quando há cada 15 segundos uma mulher é espancada, 3 mulheres são mortas por semana em Curitiba e Região, somos criminalizadas e presas se necessitando interromper uma gravidez, apelamos ao aborto; e vivemos com medo constante de sermos estupradas e assediadas nas ruas.
Na história fomos queimadas numa greve dentro de uma fábrica e milhares foram queimadas como bruxas. Seguimos sendo perseguidas. Nós mulheres vivemos em estado de medo. E esse medo é da dominância masculina e da repressão do sistema, esse medo tem motivações políticas. Não é seguro uma mulher erguer a voz e por isso não nos expomos. Também não nos expomos porque não temos líderes e não queremos hierarquias. Não estamos aqui para comemorar, estamos aqui para recordar e para lutar. Temos rebeldias nos nossos cotidianos, enfrentando e contestando a autoridade. Mas estamos aqui em nome da Autonomia Feminista. É essa a forma de participação política e luta organizada que acreditamos.

Nós mulheres temos que ser o centro de nossas lutas. Não podemos seguir fazendo papel do sexo secundário nos partidos, ideologias e filosofias políticas, nos sindicatos e organizações, as donas de casa, cuidadoras do bem-estar destes espaços. Gênero não é um complemento. Gênero é uma questão crucial, e mais: uma questão radical. Nós não nascemos para ser complementares dos homens. Completam 100 anos do 8 de março, mas nossa luta vem há mais tempo. Muitas mulheres resistiram e foram mortas para que estivessemos aqui, seus desejos eram de emancipação de todas mulheres, e de que se acabasse a subordinação da mulher. Mas o movimento de mulheres vem reproduzindo seu papel tradicional esperado pela sociedade sexista, que as explora como mães e mulheres. Devemos honras às companheiras que nos deram uma história e um futuro, não podemos aceitar o papel subordinado, agora aos novos patrões e patriarcas acatando as ordens autoritárias dos partidos, organizações centralizadas e bandeiras políticas mentirosas que nos apagam e menosprezam.

Não seguiremos sendo bucha de canhão das revoluções que não nos contemplam. Se não posso dançar, não é minha Revolução. Nenhuma Revolução e nenhum sistema econômico mudou realmente as coisas para mulheres, embora tivessemos trabalhado em todos movimentos de libertação que surgiram. Sem nós, o sistema pára. Trabalhamos nas terras dos senhores, somos o setor mais pobre e explorado da sociedade, realizamos dupla jornada trabalhando nas casas e chefiando famílias. Somos a mão-de-obra mais barata do sistema e a mais empregada em todos setores. Nosso trabalho é invisível e não-reconhecido quando criamos nossos filhos para a nação fascista que nos obriga à maternidade. Precisamos começar a fazer algo por nós mesmas. E é a nossa luta como mulheres e o Feminismo que traz os elementos pra uma verdadeira e ampla revolução social. Um movimento de mulheres Feminista, Autônomo, Libertário, Revolucionário, Combativo e Radical nas propostas e mudanças. Queremos a extinção da feminilidade, do sistema de gêneros, do Patriarcado-Capitalismo, dos Governos e do Estado.

As mudanças que almejamos não serão dadas pelo Estado, nem por nossos Patrões, nem por nossos maridos nem pelos comitês centrais dos partidos que nos exploram e às nossas esperanças tal qual os capitalistas. Porque todos estes são frutos do Patrtiarcado, ou Dominação Masculina, que só consegue conceber modelos binários de dominante/dominado, senhores e escravos, patrões e empregados, sádicos e masoquistas, destruindo qualquer referência a uma possibilidade de relações horizontais, que é uma busca politica feminista em seu apelo à igualdade. Somente uma verdadeira e ampla Revolução Social trará um mundo diferente deste, do sistema do Capital e de Classes, do Imperialismo e Militarismo. Essa revolução não vai ser construída por nossos governantes, mas pela rebelião dos povos. Somos desobedientes, não serão as leis que aprisionam nem as políticas desse mesmo Estado que massacra pobres e negr@s, mata mulheres negando assistência a saúde e aborto seguro, que se silencia e é cúmplice perante o feminicídio e o tráfico de mulheres em prostituição que trarão a segurança e a liberdade que mulheres esperam há tantos anos.

Pelo fim do sistema do Capital – Patriarcado, e suas variantes Racistas, Classistas, Especistas, Lesbofóbicas e seu fascismo original.

Pela Autonomia Feminista. Nem Deus, nem Pátria, Nem Patrão, Nem Partido e Nem Marido. Feminismo já!"

- Coletivo de Ação Feminista, 6 de março de 2010, em ato pelos 100 anos do 8 de março, Curitiba-PR



domingo, 28 de fevereiro de 2010

Filme-Debate "Que bom te ver viva" e Ato do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. Oficina de Iniciação do Wendo dia 6.

O Coletivo de Ação Feminista estará realizando atividades para o 8 de março. Exibiremos o filme-documentário da cineasta Lúcia Murat, "Que bom te ver Viva", em que a experiência de mulheres com a violência política sofrida sobre suas subjetividades e corpos, sobreviventes de tortura durante a ditadura militar brasileira, é finalmente tirada do silêncio.



O CAF, além de tentar resgatar este debate, fará a articulação com a criminalização dos movimentos sociais e, nisso, o caráter político da situação de clandestinidade que o sistema Patriarcal condena mulheres: foi somente durante a ditadura militar recente que tivemos conhecimento da repressão política? A crescente criminalização de mulheres que realizam abortos pois a lei que o proíbe, a falta de escolhas, a exclusão de mulheres lésbicas da assistência a saúde e as demissões por motivação lesbfóbica, a violência sexual que nos faz viver em estado de medo nos ambientes públicos e nas ruas, a heterosexualidade compulsória que pune quem transgride os limites dos comportamentos estabelecidos como femininos e masculinos, o número de mulheres nas prisões sem julgamento, a ação repressiva da polícia sobre a população negra e pobre, o número de femicídios e a exposição das mulheres na prostituição e as mensagens de ódio na pornografia acaso não nos dizem de formas repressivas de violência empregada para controlar e silenciar àqueles que desobedecem? Não é a violência contra a mulher em geral uma perseguição e correção, intimidação política? E quanto ao anti-feminismo que também busca tornar arriscado e vigiado qualquer posicionamento da mulher? E quanto ao capitalismo neoliberal que somos levados a celebrar por essa falsa idéia de que a Ditadura e essa discussão acabou?

Quando?
Dia 5 de março, sexta feira, às 9hrs.
Onde?Reitoria da UFPR, anfi 100.
http://br.mc1134.mail.yahoo.com/mc/compose?to=acaofeminista@gmail.com
http://acaofeminista.blogspot.com/
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100 anos do 8 de março – Dia internacional da Mulher:
O que conquistamos?


No próximo dia 8 de março se completa o centenário da data de memória das lutas das mulheres no mundo, criada em protesto a repressão e morte de uma greve de mulheres trabalhadoras por seus patrões. Um século depois, nos perguntamos: O que mudou? Por que o feminismo se faz necessário?

Mulheres seguem sendo perseguidas e mortas pelo sistema patriarcal: em 2008 várias mulheres foram presas por realizarem aborto, que ainda é ilegal. A cada 8 minutos uma mulher morre por realização deste em condições insalubres. Além disso, são 3 mulheres assassinadas por seus maridos em Curitiba e região metropolitana, em consequência das idéias machistas que geram a violência contra a mulher, e ainda há apenas 1 centro de acolhimento destas em Curitiba inteira. A pobreza feminina agrava, seus trabalhos são mal-remunerados e sobrecarregados com os serviços do lar e de sustento da família. Temos medo de andar sozinhas numa rua a noite porque a violência sexual é uma realidade.

O COLETIVO DE AÇÃO FEMINISTA REALIZA ATIVIDADES E CONVIDA TODAS E TODOS A PARTICIPAREM!!

Dia 5 de março: exibição e debate do filme "Que bom te ver viva" de Lúcia Murat, sobre a repressão política às mulheres na ditadura militar na reitoria da UFPR.
Dia 6 de março: Marcha em ato pelo 8 de março, concentração na Santos Andrade às 10hrs da manhã.
Dia 8 de março: Boca Maldita, panfletagem e ações promovidas pelo Coletivo de Ação Feminista na XV.



Venham para a Luta!!



COLETIVO DE AÇÃO FEMINISTA




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Mais um informe: Oficina de Iniciação do WENDO no dia 6 de março:

# Informativo WenDo/CWB – 05 #


No sábado dia 6 de Março haverá Oficina de Introdução ao Wendo (Autodefesa Feminista). Esta oficina é direcionada para mulheres a partir de 14 anos de idade, que têm interesse em conhecer técnicas básicas de defesa pessoal feita por mulheres e para mulheres.

Se houver interesse, após esta oficina você pode integrar o grupo de treino, onde praticamos técnicas mais avançadas.


Inscrições: wendo.cwb@gmail.com

Telefone: 9679-4180

ATENÇÃO! AS VAGAS SÃO LIMITADAS!!


Se você se inscrever e não puder comparecer, favor avisar com 48 horas de antecedência para não tirar a vaga de outra mulher.

A colaboração com os custos da oficina é voluntária e a quantia fica a seu critério! Por favor, não deixe de vir se não puder contribuir!

Recomendamos o uso de roupas leves e confortáveis. Pedimos a todas que tragam seus canecos de casa, para evitarmos desperdício de copos plásticos.


Horário: das 9:00 às 13:00 h aprox.

Tolerância máxima de 10 min. Após, não será permitida a entrada.

Pedimos que chegue um pouco mais cedo para nos organizarmos.

LOCAL: SISMUC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba)
Rua Monsenhor Celso, 225, 9 andar. Cj 901/902 - Centro.

Se você gostaria de participar, mas não pode nesta data / horário, nos escreva mesmo assim, para que possamos ter seu contato e avisá-la de uma próxima oficina.

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O Wen-Do é uma autodefesa que surgiu no Canadá nos anos 60, feito por mulheres e para mulheres. Reúne técnicas fáceis para que possam ser usadas de forma efetiva, sem necessidade de força ou condicionamento físico.

Mas não se trata apenas disso; é uma prática que faz com que as mulheres reflitam sobre a violência de gênero em diversos aspectos (físicos, psicológicos, etc.) e, assim, aprendam a se prevenir e a se defender. É um espaço para o fortalecimento global das mulheres!


sábado, 6 de fevereiro de 2010

As mulheres e a Pornografia

Mentira #1 - Mulheres são inferiores aos seres humanos
As mulheres da "Revista Playboy" são chamadas de "coelhinhas", são transformadas em pequeninos animais graciosos, ou "parceiras de jogo", transformadas num brinquedinho. A "Revista Penthouse" chama as mulheres de "animal de estimação". A pornografia freqüentemente se refere às mulheres como animais, brinquedos ou partes de corpo. Alguns materiais mostram somente o corpo ou as genitais e não mostram de maneira nenhuma o rosto. A idéia de que as mulheres são verdadeiramente seres humanos com pensamentos e emoções é subestimada.


Mentira #2 - Mulheres são um "esporte"
Algumas revistas de esporte têm uma sessão de "roupas de banho". Isto sugere que as mulheres são apenas um tipo de esporte. A pornografia vê sexo como um jogo, deve-se "ganhar", "conquistar", ou "marcar pontos". Homens que pensam da mesma forma gostam de falar sobre "marcar pontos" com mulheres. Eles julgam sua masculinidade por quantas "conquistas" conseguem fazer. Cada mulher que "conquista" é um troféu novo na sua prateleira para validar a própria masculinidade.

Mentira #3 - Mulheres são propriedades
Todos já vimos fotos de um super carro com uma garota debruçada sobre ele. A mensagem sem palavras: "Compre um, e ganhará os dois". Pornografia que mostra o sexo explícito vai ainda mais longe: mostra mulheres como uma mercadoria num catálogo, expondo-as o mais abertamente possível para que o consumidor veja. Não me surpreende que muitos rapazes pensem que porque gastaram uma boa quantia de dinheiro levando uma garota para sair, têm o direito de fazer sexo com ela. A pornografia ensina que mulheres podem ser compradas.


Mentira #4 - O valor da mulher depende de quão atrativo seja seu corpo
Mulheres que são menos atraentes são ridicularizadas na pornografia. São chamadas de cadelas, baleias, porcas ou coisa pior, simplesmente porque não se enquadram no critério de mulher "perfeita" da pornografia. A pornografia não se importa com o que a mulher pensa ou com sua personalidade, somente

Mentira #5 - Mulheres gostam de ser estupradas
"Quando ela diz não, ela quer dizer sim" é um típico cenário pornográfico. Mostram mulheres sendo estupradas, lutando e chutando primeiro e depois, começando a gostar. A pornografia ensina os homens a gostar de machucar e abusar das mulheres por diversão.


Mentira #6 - Mulheres deveriam ser desprezadas
A pornografia é geralmente cheia de discursos de ódio contra as mulheres. Mostram mulheres sendo torturadas e humilhadas em centenas de maneiras insanas diferentes, mas implorando por mais. Esse tipo de tratamento demonstra algum respeito pelas mulheres? Algum amor? Ou o que a pornografia está promovendo é ódio e descaso pelas mulheres?


Mentira #7 - Criancinhas deveriam fazer sexo
Uma das maiores vendas da pornografia é a versão pornográfica infantil. As mulheres são "produzidas" para parecerem com menininhas usando rabinhos de cavalo, sapatinhos de meninas e segurando um ursinho de pelúcia. A mensagem das fotos e cartazes diz que é normal para adultos fazerem sexo com crianças. Isso influência os usuários de pornografia a verem as crianças com uma intenção sexual.

Mentira #8 - Sexo ilegal é divertido
A Pornografia geralmente tem elementos ilegais ou perigosos incluídos para tornar o sexo mais "interessante". Sugere que não se pode aproveitar o sexo se este não for excêntrico, ilegal ou perigoso.


Mentira #9 - A Prostituição é fascinante
A pornografia pinta uma imagem animadora da prostituição. Na realidade, muitas mulheres retratadas no material pornográfico são garotas que fugiram de casa e estão presas a uma vida de escravidão. Muitas foram abusadas sexualmente. Muitas estão infectadas por doenças sexualmente transmissíveis incuráveis que tem alto risco de contágio e geralmente morrem muito jovens. Muitas usam drogas para poder agüentar viver da pornografia.

(Fonte: Comunidade "Antipornografia" no Orkut)

Moral da história... : pornografia destrói a sexualidade.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dor

Os motivos para a tristeza das mulheres não devem ser depreciados ou refutados, nem materialmente alterados por mudanças paulatinas nas circunstâncias econômicas e sociais. A tristeza da mulher deriva de sua impotência. Esta a torna vulnerável a toda uma série de infortúnios que a pressionam eternamente. Seu dever, ela aprende todos os dias em milhares de fontes, é atrair, isto é, ser julgada atraente por outros cujas reações não pode ditar. Ela confia em que basta ser uma pessoa simpática, uma boa garota, e descobre que isso não basta. Esforça-se com afinco, sai-se bem na escola, ganha fama de inteligente, e só os professores gostam dela. Convence-se de que não é linda, pelos padrões e estereótipos que se vêem em todos os lados. Mesmo que seja linda, não o será por muito tempo. Se tiver algum sucesso em atrair, quando a idade a marcar, está condenada a perder suas vitórias e permanecer provada delas. Hoje, as adolescentes já sentem que seu corpo amadurecendo é matronal demais e esperam rejeição. O fracasso da ligação com um par equivale ao fracasso em tudo. A mulher que nunca se acasalou deve sofrer. Se já, e foi abandonada, fica desolada. A manutenção do elo com um par muito frequentemente exige a obliteração gradual de seu eu individual. "Quero fazê-lo feliz", diz, sem saber que, se ele não é feliz, isso tem menos a ver com ela do que com qualquer dos outros fatores na vida dele. Se tenta tratar os homens como os homens tratam as mulheres, endurece-se e mancha a sua auto-imagem. Se não tem filhos, fica decepcionada; se tem, está sentenciada a longos períodos de isolamento em casa com aquele filho e ser a única responsável por quaisquer problemas que a criança possa enfrentar. Quando o filho cresce, ela não tem o direito de permanecer em contato intimo com ele e precisa sofrer essa perda. Se interrompe uma gravidez, também tem que aguentar o remorso e lutar. Talvez encontre satisfação no trabalho, se tiver muita sorte de ter um que valha a pena. Pobreza, trabalho maçante e solidão são razões válidas para a tristeza; além e abaixo, longe do alcance de todas elas, está o amor não correspondido. Amor do pai, do companheiro, do filho, todos para a vasta maioria das mulheres permanecem não correspondidos. Os entes queridos de uma mulher são o centro de sua vida; ela tem de aceitar ficar distante do centro da vida deles.

(...)

Por trinta anos tentamos dirigir o movimento feminista com base na raiva das mulheres, mas elas nunca se apresentaram em quantidades suficientes para imperlir-nos para a frente. Se pudermos encontrar meios de colher a energia da dor oceânica das mulheres, moveremos montanhas.


Quero ser a garota mais surpreendente
Amo-o tanto que o amor vira apenas ódio
Simulo com tanta realidade que fico além da simulação
Algum dia você vai sofrer como eu sofro
(Hole)


(G. Greer - A mulher inteira)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mulheres são seres humanos. Mulheres têm pelos.

Isso a ser escrito agora é apenas um relato bem simples. Espero que ajude quem ler a refletir um pouco, até porque acredito muito que a luta das mulheres por uma identidade diferente da imposta pelo patriarcado é algo a ser feito dia a dia.

Quando eu tinha 14 anos me deparei com a questão de me depilar. É quase como uma obrigação. Você nem mesmo sabe porque está fazendo, mas faz porque todas as meninas fazem, e porque todas as mulheres fazem. Fazem simplesmente porque devem fazer. Alguém gosta?
É engraçado, antes de simplesmente aceitar que se depilar é "mais higiênico" ou "mais bonito" ou "mais feminino", pensar sobre essas justificativas. Vamos a elas.

"Mais higiênico": Todas as pessoas suam, e isso é importante para eliminar as toxinas do corpo. O quanto se sua depende muito mais de uma questão hormonal e de tipo de pele do que de se ter ou não retirado os pelos. Além disso, se ter pelos é "nojento", os nossos colegas humanos do sexo masculino devem ser a porquice personificada, porque eles tem muito mais pelos do que nós. Engraçado é que são eles mesmos os que reforçam essa ideia de que mulher "peluda" é nojenta...

"Mais bonito": Beleza é relativo. Bonito pra quem? Para você mesma ou pra outrem? É difícil a contra-argumentação de "mas eu [i]acho[/i] mais bonito" ser independente de um "sentir-se bem" porque é aceita pelo outro (esse "outro" sem sexismo linguistico). Infelizmente isso é comum: como estamos sendo inseridas num padrão de beleza opressor, fazemos as coisas mais porque seremos aceitas, o nosso "sentir-se bonita" depende do que se define estereotipicamente como "bonita".

"Mais feminino": O que é "feminino"? Algo que é relativo a mulher. Tudo bem, mas esse "algo", quem escolhe? Quem determina? A mulher mesma? Nós determinamos que somos mais bonitas sem pelos, com um "belo sorriso, bons dentes, bonitos seios, longas pernas, bunda bochechuda, voz sensual"?

Eu achava um saco me depilar. Aí quando me deparei com essa noção absolutamente radical de que muelhes não não seres castrados, mas SERES HUMANOS que é o FEMINISMO, parei com isso. Simples assim.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

It's a Big Fat Revolution: Nomy Lamm


Naomi Elizabeth Lamm, ou apenas Nomy Lamm, é uma ativista política, cantora, compositora, musicista, escritora, dramaturga, lésbica, judia, gorda e que só tem um pé.

"A badass, fat ass, dyke amputee", em suas próprias palavras.

Nomy co-escreveu a ópera "The Transfused", lançou dois álbuns ("Anthem" e "Effigy"), publicou um zine chamado "My Body Is Fucking Beautiful" entre vários outros projetos que incluem livros, peças, palestras, aulas de canto (Nomy acredita que todos têm a capacidade para cantar, mas muitos não conseguem achar o jeito certo de lidar com a própria voz) e projetos relacionados à positividade em relação ao corpo, o combate à opressão de gordxs e amputadxs e também ao que for relacionado ao queer ao punk e ao feminismo em geral.

Em 95, Nomy escreveu um ensaio extremante pessoal (como a maior parte de seu trabalho), que fala sobre a satanização que uma pessoa gorda (em especial a mulher) sofre na sociedade e de como o feminismo e o meio punk acabam lidando com isto, às vezes de maneira libertadora e às vezes até mesmo opressora.
Ei-lo, numa tradução livre e despreocupada, mas que acredito transmitir a sinceridade e as ideias pretendidas por ela:

It's a Big Fat Revolution
por Nomy Lamm

Vou escrever um ensaio descrevendo minhas experiências com opressão contra o corpo gordo e as maneiras com as quais o feminismo e o punk tem influenciado meu trabalho. Será claro, conciso e bem elaborado, e será exposto como artigo tese básico, no formato acadêmico. Vou lidar com estas questões de forma madura e intelectual. Vou me vangloriar com palavras difíceis sempre que possível.

Eu menti. (Você provavelmente sacou essa, hein?) Não posso fazer isto. Esta é a minha vida, e minhas palavras consistem na mais eficiente ferramenta que possuo para confrontar esse mundo-de-garotos-brancos (este é o meu jeito punk e bonitinho mas oh-tão-revolucionário de dizer "patriarcado"). Se tem uma coisa que o feminismo me ensinou, foi que a revolução será nos meus termos. A revolução será incitada pela minha voz, pelas minhas palavras, não pelas palavras do universo de intelecto masculino que já existem. E eu sei que um cambau de muito do que eu digo é totalmente contraditório. Minhas contradições podem co-existir, porque elas existem dentro de mim, e eu não vou simplificá-las para que elas possam caber no padrão linear e analítico em que eu sei que elas deveriam caber. Eu acho que é importante reconhecer que essa coisa toda realmente contribui com a revolução, de verdade. O fato de eu escrever assim porque é o jeito que eu quero escrever faz desse mundo simplesmente mais seguro para mim.

Quero explicar o que eu quero dizer quando falo "a revolução", mas não tenho certeza se vou conseguir. Porque ao mesmo tempo em que estou sendo totalmente séria, eu também vejo o meu uso do termo como gozação com ele mesmo. Parte da razão para isso é que eu estou completamente ciente de que eu ainda faço parte da cultura dominante de várias maneiras. A revolução poderia muito bem ser feita contra mim, ao invés de ao meu favor. Eu não quero me fazer soar como se eu fosse a mais oprimida, mais punk-rock, mais revolucionária das pessoas no mundo. Mas ao mesmo tempo eu acho que revolução é uma palavra que eu deveria usar o mais frequentemente possível, porque é um conceito do qual eu preciso estar consciente. E eu também não quero dizer de um jeito abstrato nem intelectualizado. Eu realmente acho que a revolução começou. Talvez não seja aparente na cultura mainstream ainda, mas eu vejo isto como um bom sinal. Assim que a cultura mainstream perceber essa revolução, ela tentará cooptá-la.

Por ora a revolução acontece quando eu passo a noite toda acordada falando com minhas melhores amigas sobre feminismo e marginalização e privilégio e opressão e poder e sexo e direito e rebelião da vida-real. Por ora a revolução acontece quando eu vejo uma garota se posicionar de frente para uma multidão e relatar a todxs sobre seu abuso sexual. Por ora a revolução acontece quando eu recebo uma carta de uma garota que eu nunca conheci e que diz que o zine que escrevi mudou a sua vida. Por ora a revolução acontece quando os sem-teto daqui acampam por uma semana no meio do centro da cidade. Por ora a revolução acontece quando sou confrontada por umx amigx sobre algo racista que eu disse. Por ora a revolução acontece na minha cabeça quando eu vejo o quão brilhantes minhas amigas e eu somos.

E estou vivendo a revolução por meio de minhas memórias e por meio da minha dor e dos meus triunfos. Quando penso sobre todas as marcas que possuo cravadas por essa sociedade, eu fico maravilhada por não ter me tornado um monte de merda inútil. Fatkikecripplecuntqueer, em poucas palavras. Mas aí eu tenho que levar em conta o fato de que sou articulada, branca, uma garota educada, de classe média, e que isso me concede uma pancada de privilégio e oportunidade de lidar com a minha opressão que pode não estar disponível para outras pessoas oprimidas. E desde que minha personalidade e meu ser não estão dividos em parte privilegiada e parte oprimida, tenho de lidar com as maneiras com que essas duas partes interagem, se equivalem e às vezes até se ofuscam. Por exemplo, eu nasci com apenas uma perna. Acredito que seja grande coisa, mas que nunca influenciou minha imagem corporal do mesmo jeito que ser gorda influenciou. E o que significa ser uma mulher branca em oposição a uma mulher de cor? Uma garota gorda de classe média comparada a uma garota pobre e gorda? O que significa ser gorda, fisicamente inapacitada e bissexual? (Ou gorda, incapacitada e sexual, num todo?)

Veja, claro, ainda sou uma pessoa de verdade, e não estou sempre a vontade com o papel de revolucionária. Às vezes já é difícil o suficiente pra mim simplesemente sair da cama pela manhã. Às vezes é dificil o suficiente simplesmente falar com as pessoas, sem ter que lidar com as nuances políticas de tudo o que sai de suas bocas. Sem contar o fato de que eu faço toneladas de trabalhos em relação à opressão de gordxs, e que eu tenho trabalhado tão tão duro na minha imagem corporal, quando existem situações em que eu realmente odeio meu corpo e não quero lidar com ser forte o tempo todo. Porque eu sou forte e tenho pensado essa questão de tantas maneiras diferentes, e eu realmente tenho uma autoestima naturalmente elevada, cheguei num ponto onde posso dizer honestamente que amo o meu corpo e que sou feliz sendo gorda. Mas ocasionalmente, quando me olho no espelho e vejo esse corpo que é tão diferente dos das minhas amigas, tão diferente do que me disseram de como ele deveria ser, eu quero me esconder e nunca mais lidar com isso de novo. Nesses momentos não me parece justo que eu tenha sempre que lutar para ser feliz. Não seria mais fácil simplesmente desistir e partir para outra dieta para que eu possa parar com esta luta permanente? Então eu poderia ainda apoiar a fat grrrl revolution sem que me afetasse pessoalmente em todos os sentidos. E eu sei, eu sei eu sei que não é a resposta e que eu nunca faria isso comigo mesma, mas eu não posso dizer que é algo que nunca passou pela minha cabeça.

E não ajuda muito quando minhas amigas e minha família, que sabem como eu me sinto em relação a isto, continuam a fazer declarações anti-gordas e reclamando do quão gordas elas se sentem e mencionando novas dietas das quais ouviram a respeito e que estão morrendo para experimentar. "Estou parecendo uma melancia." "Uau, estou tão feliz, agora eu visto tamanho sete ao invés de nove." "Gosto deste espelho porque ele me faz parecer mais magra".

Não consigo entender como elas ainda podem pensar desse jeito quando eu estou constantemente falando destes assuntos, e não acredito que elas achem que seja o tipo de coisa ok para se falar na minha frente. E não é como se eu quisesse censurar suas conversas perto de mim.. Eu só não quero que elas pensem dessa maneira. Eu sei que a maior parte disto reflete o jeito que elas se sentem em relação a elas mesmas e que não é a intenção me atacar ou invalidar o meu trabalho, mas isto faz com que seja muito mais difícil para mim. Isto coloca todos esses pensamentos dentro de mim. Hoje eu estava parada fora do trabalho quando eu vi um reflexo meu numa janela e pensei "Ei, eu não pareço tão gorda!" e eu imediatamente percebi o quão ferrada essa ideia era, mas que nem por isso me fez parar de me sentir mais atraente.

Eu quero isso fora de mim, não faz parte de mim, e teoricamente eu posso separar tudo e jogar fora toda a merda, mas ela nunca vai embora de verdade. Quando isto vai acabar finalmente? Quando poderei mudar para outras questões? Nunca vai acabar, e isso é muito difícil de aceitar.

Estou sobrevivendo neste sistema de opressão através de minhas memórias, e até mesmo quando não estou pensando a respeito, elas estão lá, influenciando tudo o que eu faço. Cinco anos de idade, minha primeira dieta. Sete anos, sendo declarada oficialmente "acima do peso" por pesar cinco quilos a mais do que uma criança "normal" de sete anos de idade deveria pesar. Dez anos de idade, aprendendo a passar fome de propósito e ser feliz me sentido constantemente tonta. Treze anos de idade, passando do limite que me faz ser maior do que minhas amigas para ser de fato "gorda". Quinze anos, ouvindo os garotos na sala ao lado falar sobre o quão gorda (e logo, não atraente) eu sou. Sempre que me apresento, eu me lembro quando meu pai dizia que ele não gostou da coreografia que eu fiz porque eu parecia gorda enquanto dançava. Toda vez que pinto o meu cabelo eu lembro quando minha mãe não me deixava tingir o cabelo na sétima série porque ver gente gorda de cabelo pintado fazia com que ela pensasse que elas estavam apenas tentando acobertar o fato de que eram gordas, tentando parecer interessantes a despeito disso (quando claro que é óbvio que é o que elas realmente devem fazer se elas querem parecer atraentes, certo?) E essas são grandes lembranças para as quais eu posso apontar e dizer, "Isso dói." Mas e o que dizer de toda uma vida de mídia a qual eu fui exposta que me diz que só pessoas magras são amáveis, saudáveis, bonitas, talentosas, divertidas? Eu sei que estas mensagens estão lá, guardadas junto com o resto de minhas lembranças, mas eu simplesmente não posso rotular nem a elas nem aos efeitos em minha mente. Eles são elusivos e não necessariamente causam dor na hora. Eles estão bem disfarçados e amiúde parecem sedutores e românticos. (Nunca vou me apaixonar porque eu não posso ser levantada e girada no ar por ninguém...)

Por toda a minha vida a mídia e todos ao meu redor me disseram que ser gorda é feio. O que claro é apenas um padrão cultural que tem muitas, muitas mentiras médicas as quais recorrer. Estudos mostram que pessoas gordas não são saudáveis e tem baixa expectativa de vida. Estudos também mostram que pessoas famintas tem essas mesmas particularidades. Estes riscos de saúde para as pessoas gordas provam ser um resultado de contínua inanição -- regimes -- e não de serem gordas por si só. Eu não sou gorda devido à falta de força de vontade. Sou vegetariana desde os dez anos. Controlar o que eu como é fácil pra mim. Passar fome não é (apesar de que pela maior parte da minha vida eu desejasse que fosse). Meu corpo é para ser assim, e eu estive em um monte de regimes nos quais eu perdi peso por um período de vários meses e depois ganhei tudo de volta. Há dois anos eu finalmente acabei com esse ciclo. Não faço mais dietas para emagrecer porque eu sei que é assim que o meu corpo é para ser, e é assim que eu quero ser. Ser gorda não me faz ser menos saudável ou menos ativa. Ser gorda não me faz menos atraente.

Vejo na TV uma mulher magra dançando com um rapaz espetacularmente bonito, e sobre esta cena eu ouço, "Nunca fui feliz até ir para o [preencha o espaço vazio com algum programa de emagrecimento], mas agora eu recebo toda a atenção dos homens e eu me sinto tão bem! Não tenho que me preocupar com o que as pessoas dizem a meu respeito pelas minhas costas, porque eu sei que estou bonita. É um dever seu se dar a vida que você merece. Ligue para [preencha o espaço vazio com algum programa de emagrecimento] e comece a perder cinco quilos imediatamente!" A televisão me mostra um close-up de uma garota gorda aos prantos que diz "Eu tentei de tudo, mas nada funciona. Eu perco dez quilos, e ganho onze. Me sinto tão envergonhada. O que posso fazer?" A primeira vez que vi esse comercial eu comecei a chorar e memorizei o número na tela. Eu conheço esse sentimento de vergonha. Eu conheço o sentimento de não ter mais o que tentar, de sentir que sou inútil por não conseguir perder toda aquela "gordura indesejada". Mas eu sei que a infelicidade não é um resultado do fato de eu ser gorda. É um resultado da sociedade que me diz que por ser assim, sou ruim.

Onde está a revolução? Meu corpo é lindo, e toda vez que me olho no espelho e percebo isto, estou contribuindo com ela.

Sinto que, nesse ponto, se espera que eu tente provar a você que ser gorda pode ser lindo, com descrições de "coxas com estrias e traseiros grandes e macios". Não vou fazer isso. Não cabe a mim convencer ninguém de que ser gorda porde ser atraente. Me recuso a ser auto-intitulada a rainha do pornô tamanho grande. Você tem que descobrir por si só.

Não é o suficiente você me dizer que "não julga por aparências" -- então ser gorda não lhe incomoda. Ignorar seus corpos e "julgar apenas o que está dentro de nós" não é a resposta. Isto parece acompanhar a mesma linha de raciocínio daquela brilhante escola de pensamento chamada "humanismo": "Nós somos todxs pessoas, então vamos ignorar trivialidades como raça, classe, gênero, preferência sexual, tipo físico e assim por diante". Besteira! Quanto mais ignoramos estes aspectos de nós mesmos, mais vergonhosos eles se tornam e maior é a expectativa de de ser o que geralmente é imposto quando esses atributos não são dados -- branco, hetero, rico, magro, macho. É ilusório tentar fazer vista grossa para essas diferenças exteriores (e logo insignificantes, certo?), porque nós ainda estamos sofrendo lavagem cerebral com a mesma porcaria que todo mundo. Desse jeito nós só estamos não falando a respeito. Eu não quero que me digam, "Sim, você é gorda, mas você é linda por dentro". É apenas mais um jeito de me dizer que sou feia, que de jeito nenhum eu sou bonita por fora. Ser gorda não é igual a ser feia, não me venha com essa. Meu corpo sou eu. Eu quero que você veja meu corpo, conheça meu corpo. A verdadeira revolução vem não de quando a gente aprende a ignorar nossa gordura e fingir que não somos diferentes, vem de quando aprendemos a usar isto em nosso favor, quando aprendemos a desconstruir todos os mitos que propagam o ódio axs gordxs.

Minhas amigas magras são constantemente reconhecidas pelo feminismo mainstream enquanto eu sou ignorada. A mentalidade mais difundida em relação à imagem corporal é algo do tipo: Mulheres se olham no espelho e pensam, "Eu sou gorda", mas elas não o são realmente. De fato elas são magras.

De fato elas são magras. Mas eu sou, de fato, gorda. De acordo com a teoria feminista mainstream, eu sequer existo. Eu sei que mulheres frequentemente se olham no espelho e pensam que são maiores do que são. E sim, é um problema. Mas a análise não pode parar por aí. Há mulheres que são gordas, e é preciso lidar com isto. Ao invés de simplesmente confortar as pessoas, "Não, você não é gorda, você é apenas curvilínea," talvez devêssemos desmistificar o ser-gorda e lidar com a situação como um todo. E eu não quero dizer talvez, quero dizer que é uma necessidade. Uma vez que percebemos que ser gorda não é "inerentemente ruim" (e eu não posso nem acreditar que estou escrevendo isto -- "inerentemente ruim" -- soa tão ridículo), então poderemos trabalhar o probelma como um todo ao invés de lidar apenas com uma parte insignificante dele. Todas as formas de opressão trabalham juntas, portanto elas devem ser combatidas juntas.

Acredito que muitas autoras do feminismo mainstream que dizem lidar com este assunto o estão fazendo de um jeito muito errado. Susie Orbach, por exemplo, com "Gordura é uma questão feminista" (Fat Is A Feminist Issue) nos diz: Não faça regime, não tente perder peso, não alimente a indústria da dieta, mas aí ela prossegue e diz: Mas se você se alimentar bem e se exercitar, você perderá peso! E eu sinto que é ótimo, legal, é tão maravilhoso que tenha funcionado para ela, mas ela não entendeu do que se trata. Ela está tentando ajudar as mulheres, mas na real está nos machucando. Nos machucando porque ela está dizendo que ainda só há um corpo que é bom para nós (e ela é quem vai nos ajudar a alcançá-lo!) É quase como aquela mulher do "Chega de Neura!" (Stop The Insanity), Susan Powter. Uma de minhas amigas leu o livro dela e disse que a primeira metade toda trata de opressão contra o corpo gordo e diz como é difícil ser gorda em nossa sociedade, mas aí ela diz: Então siga minha nova dieta! Esse tipo de coisa mexe tanto com nossas emoções que pensamos, "Uau, essas pessoas realmente me entendem. Elas sabem de onde vim, então devem saber o que é melhor para mim".

E existem então tantas razões "liberais" para perpetuar o ódio axs gordxs. Sim, nós finalmente descobrimos que regimes nunca funcionam. Como, então, devemos explicar esta montruosidade horrorosa? E como podemos nos livrar dela? A nova visão "liberal" em relação à gordura é de que ela é causada por distúrbios psicológicos profundos. A infância dela foi ruim, ela foi abusada sexualmente, então ela come e fica gorda para que possa se esconder de tudo. Ela usa a sua gordura como um escudo protetor. Ou talvez quando ela era pequena, seus pais fizeram com que associasse comida com amor e conforto, então ela come como consolo. Ou então, como aconteceu comigo, seus pais sempre estavam fazendo dietas para emagrecer e sempre a importunando em relação ao que estava comendo, e aí a comida se tornou algo do qual se envergonhar e que deve ser escondida e mantida em segredo. E por um bom, bom tempo eu realmente acreditei que se meu pais não tivessem me infundido com todas essas atitudes de merda em relação à comida, eu não seria gorda. Mas foi aí que percebi que tanto meu irmão quanto minha irmã cresceram exatamente no mesmo ambiente que eu, e ambos são magros. Obviamente não é a razão pela qual eu sou gorda. Terapia não vai ajudar em nada, porque não há nada para ser curado. Quando vamos parar de nos agarrar a motivos para odiar gente gorda e perceber que a gordura é totalmente normal e uma coisa natural que não deveríamos nos livrar dela?

Fora o que eu disse antes sobre minhas amigas falarem coisas que realmente doem em mim, eu percebo que elas são, na real, bastante fora do comum. Não quero fazer parecer que elas sejam negligentes, pessoas ignorantes. Eu estou constantemente tratando desses assuntos e sinto que eu geralmente tenho a capacidade de confrontar minhas amigas quando elas agem insensivelmente, e elas vão entender ou ao menos tentar. Às vezes quando saio do meu círculo isolado de amigxs eu fico chocada com o "mundo real". Ouço garotos no ônibus referindo-se às suas namoradas como se fossem suas "putas", vejo mulheres gordas sendo alvo de importunações nas ruas, assisto TV e vejo como cada pessoa gorda é retratada como uma idiota obsessiva por comida, vejo mulheres tratadas como propriedade de homens que vêem a masculinidade como direito de poder... Eu deixo estas situações sentindo que a cena punk, na qual a maioria das minhas interações acontecem, é um abrigo. Eu não posso me imaginar vivendo numa comunidade onde eu não tenho para onde ir em busca de apoio. Não posso me imaginar vivendo no "mundo real".

Mas aí eu tenho de lembrar que estas situações ainda estão lá, na minha comunidade -- as mesmas atitudes ferradas são disseminadas no meio punk também; elas apenas tomam uma forma mais sutil. Sinto como se estas questões estão finalmente começando a ser reconhecidas e trabalhadas, mas o ódio axs gordxs é ainda um padrão. Claro que todo mundo concorda que não devemos fazer regime e que os distúrbios alimentares resultam de nossa sociedade repressora, porém geralmente a coisa não é levada muito além disso. Parece que as pessoas têm essa idéia de que o punk é desligado da mídia. Isso porque somos essa cultura cool e underground, somos imunes aos sistemas de opressão. Ainda assim, os mais legais, mais punks são os jovens magrxs. E os mesmos jovens legais que curtem tanto desafiar a "Amerika" capitalista são os que dizem que a gordura é o símbolo da riqueza e da ganância do capitalismo. Aham, é um jeito novo e diferente de pensar: Culpe a vítima. Espalhe a opressão institucionalizada. Pessoas gordas não são as que estão oprimindo esses pobres garotos emos e magrelos.

Este texto é para ser sobre opressão ao corpo gordo. Sinto como se fosse disso que eu sempre falo. Às vezes sinto que toda minha identidade se encerra na minha gordura. Quando estou inteiramente consciente de que sou gorda isto não pode ser usado contra mim. Fora do meu grupo seleto de amigos, em situações hostis, estou constantemente ciente de que a qualquer momento posso ser importunada. A menor das discussões com outra pessoa pode levar a um bombardeio de insultos ao meu corpo. Estou sempre pronta para isso. Descobri que isto não acontece tanto quanto eu esperava que acontecesse, mas ainda assim sempre fico atenta às possibilidades. Eu sou "a Garota Gorda." Eu sou "a Garota Que Fala De Opressão". Dentro do meio punk, é o meu escudo protetor. As pessoas me conhecem e conhecem o meu trabalho, então eu presumo que elas não vão rir do meu corpo pelas minhas costas. E se elas rirem, aí eu sei que terei apoio de outras pessoas ao meu redor. A cena punk me concede um monte de apoio que eu sei que eu não conseguiria em qualquer outro lugar. Sou capaz de publicar zines, fazer música, performances de spoken-word que são intensamente pessoais para mim. Eu me sinto realmente forte por não manter nada em segredo. Eu posso regredir ao velho clichê de que o Pessoal é Político, e não importa o quão banal isso possa soar, é a verdade. Passei tanto tempo sem nunca falar sobre ser gorda, de como isso afeta a minha auto-estima, sem nunca falar sobre as maneiras pelas quais eu sou oprimida por esta sociedade. Agora estou falando. Estou falando o tempo todo, e as pessoas me ouvem. Eu tenho apoio.

E ao mesmo tempo eu sei que tenho de ser cautelosa em relação a este apoio que recebo. Porque eu acho que para algumas pessoas isso é apenas visto como uma coisa legal, que ao me apoiar elas estão, de certa forma, recebendo um tanto de reconhecimento dentro do meio punk. Mesmo que eu seja totalmente aberta e não mantenha segredos, eu tenho que me proteger.

Esta é a revolução. Eu não entendo a revolução. Não posso colocar tudo no preto e no branco e dizer o que revolucionário e o que não é. A cena punk é revolucionária, mas não dentro dela, ou por ela mesma. Feminismo é a revolução; é solidariedade assim como é crítica e confrontação. Está é a fat grrrl revolution. É minha, mas não me pertence. Fuckin' yeah.

© Nomy Lamm 1995. Retirado do livro Listen Up: Voices From The Next Feminist Generation, editado por Barbara Findlen e publicado pela Seal Press.

Visite o site oficial de Nomy: www.nomylamm.com (em inglês)

Download dos álbuns:
Anthem, 1999: http://rapidshare.com/files/274829956/nomylamm_anthem1999.rar.html

Effigy, 2002: http://rapidshare.com/files/275259223/nomylamm_effigy2002.rar.html